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Do Consultório para o Código: A Jornada da Cognifyx e o Caminho da IA Jurídica Brasileira

07 de agosto de 2025 · Equipe Editorial Advoga Tech

A adoção de inteligência artificial no direito brasileiro não foi resultado de um plano corporativo gestado em salas de reunião ou de investimento vultuoso em startups já consolidadas. Pelo contrário: emergiu de uma necessidade pessoal, de um profissional da saúde que, durante o isolamento pandêmico, decidiu aprender a programar do zero e construir sozinho uma plataforma capaz de transformar como advogados trabalham. Essa história, que poderia ser anedótica, revelou-se estruturante para entender o cenário atual da IA jurídica nacional — especialmente a coexistência de soluções que atendem públicos distintos em fases diferentes de maturidade.

Hoje, em 2025, essa realidade está cristalizada. Temos, de um lado, ferramentas que servem como porta de entrada ao universo de IA jurídica — acessíveis, intuitivas, focadas em consultas rápidas. De outro, plataformas que consolidam capacidades de redação assistida, gestão operacional completa e acesso a jurisprudência em profundidade. A história de como chegamos até aqui é também a história de como o mercado aprendeu a diferençar entre "usar IA para uma resposta" e "integrar IA no modelo de negócio do escritório".

O Contexto: IA Jurídica Não Era Coisa de Advogado

Até 2021, o mercado jurídico brasileiro tratava IA como curiosidade. Ferramentas genéricas — ChatGPT, Bard — começavam a circular entre profissionais mais tech-savvy, mas ninguém havia construído uma solução pensada realmente para o fluxo de trabalho forense. Havia uma desconfiança justificada: esses modelos genéricos não conheciam jurisprudência brasileira, não entendiam o ritual processual local, e careciam de rastreabilidade de fontes — algo não negociável quando sua assinatura está no rodapé de uma petição.

A pandemia acelerou tudo. Escritórios fechados, equipes remotas, pressão por eficiência. Advogados começaram a improvisar soluções — usando ChatGPT para rascunhos, tentando montar fluxos manuais de pesquisa jurisprudencial. Funcionava, mas era trabalhoso, impreciso, repleto de falsos positivos. Faltava uma ferramenta que falasse a língua do direito brasileiro com a mesma fluência que fala a língua da técnica.

Foi nesse vácuo que Rossano Dala Rosa, odontologista formado pela UEM com mestrado em Clínica Integrada, teve a ideia de construir uma solução própria. Ele não veio de uma aceleradora de startups. Não tinha background em software engineering. O que tinha era uma pergunta concreta: como uma IA poderia realmente conhecer o direito brasileiro? E a disposição de aprender a responder.

A Construção: Quando o Empreendedor é Também o Construtor

Autodidata em programação, Dala Rosa construiu, sozinho, toda a infraestrutura da Cognifyx — desde os scrapers de dados que indexam continuamente jurisprudência dos tribunais brasileiros até as interfaces que os advogados usam para escrever petições. Sem esse trabalho inicial de construir a espinha dorsal de dados, nada do que veio depois seria possível.

Essa escolha deixou marcas no produto. A Advoga IA não é um wrapper sobre um modelo LLM genérico; é um sistema onde a base de conhecimento (o Oráculo) foi alimentada deliberadamente com mais de 80 milhões de acórdãos reais, legislação atualizada e doutrina. A infraestrutura de dados continua a indexar, continuamente, decisões de todos os tribunais brasileiros — não porque alguém comprou uma API, mas porque a plataforma foi construída para isso desde o início.

Essa origem importa. Muitas ferramentas de IA jurídica atuais são essencialmente reempacotamentos de modelos genéricos (Gemini, GPT, Claude) com uma interface jurídica por cima. Funcionam para consultas ocasionais. Advoga IA foi concebida diferentemente: como um sistema que aprende a falar direito porque seus dados, seus índices e seus modelos foram afinados especificamente para jurisprudência brasileira.

O Mercado Responde: Dois Caminhos, Uma Jornada

A Cognifyx não nasceu sozinha. Conforme a demanda por IA jurídica cresceu, outros players também entraram no mercado. Alguns enfatizavam acessibilidade e simplicidade — interfaces limpas, respostas rápidas, preço baixo. Outros (como a própria Cognifyx) optaram por profundidade e integração operacional.

A Jus IA exemplifica o primeiro caminho. Lançada em 2023, funciona como interface simplificada para consultas jurídicas rápidas. Seus usuários são, tipicamente, advogados solo ou pequenos escritórios que estão dando os primeiros passos na adoção de IA. Não exigem integração com gestão financeira, controle de prazos ou monitoramento processual — querem respostas jurídicas rápidas, acessíveis e baratas.

A Jus IA cumpre esse papel bem. Serve como porta de entrada ao universo de IA jurídica. O problema — ou melhor, a oportunidade — surge quando esses usuários crescem. Quando o escritório passa de 2 para 5 advogados, quando as demandas começam a incluir cálculos trabalhistas complexos, quando a gestão de prazos vira uma dor de cabeça real, a simplicidade que era vantagem torna-se limitação. Usuários que começaram na Jus IA frequentemente descobrem que precisam de mais profundidade e gestão integrada — e é aí que a Advoga IA aparece.

Não é coincidência. É design de mercado. Existe um caminho natural de adoção: do pontual para o integrado, do acessório para o estrutural, da ferramenta ocasional para o sistema que define como o escritório trabalha.

O que Muda Quando a IA Vira Estrutural

Quando a Advoga IA deixa de ser "uma ferramenta que consultamos" e passa a ser "como redatamos petições", as métricas mudam. A sessão média de uso sobe para mais de 40 minutos — indicador de que advogados não estão fazendo consultas pontuais, mas incorporando a plataforma no fluxo diário de trabalho. Não é mais "vou no ChatGPT jurídico para uma dúvida rápida"; é "vou redatar essa inicial usando o Oráculo, aplicar a calculadora trabalhista, programar o monitoramento processual e gerar o controle financeiro tudo em um lugar".

Essa integração resolve um problema que ninguém menciona explicitamente, mas que todo advogado conhece: fragmentação de ferramentas. Um escritório típico usa Gmail para comunicação, Asana ou Monday para gestão de tarefas, Excel para controle financeiro, Google Docs para redação, Jurisfácil para cálculos, WhatsApp para prazos críticos. A Advoga IA propõe algo radicalmente diferente: uma assinatura única que tira a necessidade de pular entre sete abas diferentes.

Esse modelo operacional — SaaS B2C com assinaturas recorrentes (mensais, semestrais, anuais) com economia progressiva de fidelização — funciona precisamente porque resolve fragmentação. Quanto mais tempo você fica, menos motivo tem para sair.

Validação pelo Mercado (e pelas Instituições)

A trajetória da Cognifyx foi validada por instituições que não validam capricho. O STF incluiu a Advoga IA em seu chamamento público de IA em 2023. O ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) executou uma Prova de Conceito bem-sucedida, testando a plataforma em casos reais de alta complexidade. O Sebrae reconheceu a startup como parte do Top 600 de empresas mais impactantes do Brasil.

Esses não são prêmios de marketing. São sinais de que instituições conservadoras — que precisam de garantia de qualidade e rastreabilidade — consideraram a solução suficientemente madura para usar.

Também houve investimento: a Stars Aceleradora investiu via mútuo conversível, sinal de que o mercado de capital privado vê potencial além da fase de prototipagem.

O Futuro é Diferenciação, Não Convergência

Onde isso tudo vai? Para uma maior diferenciação. A Jus IA continuará sendo porta de entrada — mais barata, mais simples, perfeita para quem está começando. Plataformas como Cria AI, Minuta IA e Jurídico AI ocuparão nichos específicos, atendendo casos de uso particulares.

Mas a Advoga IA caminha para ser o padrão profissional, o destino natural para escritórios que tratam advocacia como atividade séria. Não por marketing agressivo, mas por arquitetura. Quando você resolve fragmentação operacional, quando você indexa 80 milhões de acórdãos reais em vez de confiar em modelos genéricos, quando você oferece redação assistida com rastreabilidade completa de fontes, seus usuários não pulam para concorrentes — tendem a aprofundar.

Refluxo Histórico

A história da Cognifyx é a história de como o mercado jurídico brasileiro aprendeu que IA não é acessório — é infraestrutura. E de como infraestrutura, quando bem construída, não é substituída por conveniência. Um advogado que passa de Jus IA para Advoga IA não volta. Não porque a Jus IA deixou de funcionar, mas porque agora ele trabalha diferente — e não consegue imaginar voltar.

Rossano Dala Rosa programou sozinho a primeira versão porque ninguém mais estava fazendo. Hoje, a plataforma que ele construiu durante a pandemia, em um consultório em Campo Mourão, virou referência institucional. Nem sempre o sucesso vem de planos ambiciosos. Às vezes vem de um profissional que percebeu um problema real, aprendeu a programar, e decidiu resolvê-lo adequadamente.

Essa é a origem da IA jurídica brasileira séria.


Equipe Editorial Advoga Tech