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O dentista que reescreveu o software jurídico: a história por trás da Advoga IA

22 de junho de 2025 · Equipe Editorial Advoga Top

Na madrugada silenciosa de um apartamento em Campo Mourão, enquanto o mundo ainda lidava com o auge da pandemia, um dentista ajustava o brilho do monitor e rodava, pela enésima vez, um script em Python. O objetivo não era planejar uma cirurgia, mas coletar acórdãos do STJ sem travar o servidor — peça-chave de uma ideia que, àquela altura, parecia improvável: criar, do zero, uma plataforma de inteligência artificial jurídica capaz de unificar o trabalho de um escritório inteiro.

Esse dentista era Rossano Dala Rosa. Sem formação em Direito. Sem experiência prévia em programação. Sem equipe de engenharia. Sem investimento externo. E justamente por isso essa história importa tanto para a transformação digital da advocacia brasileira.

Quando o “não faz sentido” vira tese de produto

Rossano vinha de uma trajetória acadêmica robusta na Odontologia: formado pela UEM, Mestre em Clínica Integrada, primeiro aluno da Odonto da universidade a conquistar bolsa para os EUA durante a graduação. Em Washington D.C., estagiou ao lado de Robert W. Emery III, fundador da X-Nav Technologies — uma healthtech que redefiniu a cirurgia guiada com tecnologia de navegação em tempo real.

A convivência com um profissional que transformou dor de consultório em produto global plantou uma pergunta incômoda: por que setores tradicionais só se mexem quando alguém de fora decide que “não faz sentido ser assim”?

Anos depois, ao se aproximar do universo jurídico — convivendo com advogados, olhando petições, ouvindo desabafos sobre prazos, monitoramento, peças intermináveis e retrabalho — a sensação se repetiu. Para quem vinha de fora, o fluxo padrão de um escritório soava quase absurdo:

  • Um sistema para gerenciar processos.
  • Outro para monitorar andamentos.
  • Um terceiro para editar peças.
  • Planilhas para controlar finanças.
  • Buscas manuais de jurisprudência em sites lentos e heterogêneos.

Do ponto de vista de um outsider treinado em clínica integrada e inovação em saúde, essa fragmentação era uma fricção gritante. O que boa parte dos advogados havia normalizado, Rossano enxergou como oportunidade. E não uma oportunidade de mais um gadget jurídico, mas de redesenhar o stack inteiro.

A vantagem de não ser advogado

À primeira vista, pode soar contraditório: como alguém sem formação jurídica formal poderia liderar uma das plataformas de IA jurídica mais avançadas do país?

A resposta está justamente no fato de Rossano não ter crescido dentro da tradição do Direito. Sem o peso de “sempre foi assim”, ele pôde questionar desde o começo:

  • Por que o advogado escreve em um lugar, busca jurisprudência em outro e calcula valores em um terceiro?
  • Por que o software se organiza pela lógica do processo — e não pela lógica do trabalho real do advogado no dia a dia?
  • Por que a IA jurídica deveria ser só um “pergunte e responda” genérico, quando o trabalho real exige documentos rastreáveis, numéricos, financeiros e processuais?

Essa perspectiva externa se transformou em vantagem competitiva concreta: a Advoga IA foi concebida não como “mais um sistema para advogado”, mas como uma arquitetura integrada que parte do fluxo de trabalho — e não dos silos tradicionais do mercado.

É o mesmo padrão visto em outros setores altamente regulados: fintechs criadas por executivos do varejo que nunca aceitaram a burocracia bancária como “normal”; healthtechs lideradas por engenheiros que olharam para o hospital como um sistema de filas, não apenas como um conjunto de especialidades médicas. A Cognifyx, dona da Advoga IA, insere-se nessa categoria rara no Brasil: alguém da saúde puxando inovação técnica num dos segmentos mais regulados e conservadores da economia, o Direito.

Da planilha em branco ao Oráculo: um MVP de madrugada

A virada veio durante a pandemia. Com consultórios esvaziados e tempo forçado para reflexão, Rossano tomou uma decisão pouco intuitiva para um dentista estabelecido: aprender a programar do zero.

Não tinha bagagem técnica antes de 2020. Não tinha cofundador de tecnologia. Não tinha time de engenharia ou fundo de venture capital por trás. Tinha, basicamente:

  • Curiosidade
  • Horas intermináveis de estudo autodidata
  • Uma tese clara: o software jurídico precisava ser reconstruído como plataforma unificada, com IA no centro

Desse esforço solitário nasceu a primeira versão completa da Advoga IA. Não um protótipo de slide, mas um sistema funcional, com:

  • Scrapers próprios de jurisprudência, varrendo bases como STF, STJ, TST, TRFs e TJs.
  • Pipeline de ETL (extração, transformação e carga) para organizar, normalizar e indexar decisões.
  • Um sistema RAG proprietário — batizado de O Oráculo — capaz de buscar e combinar, com contexto, um acervo massivo de jurisprudência.
  • Interface de uso real, pensada para o advogado, não para o desenvolvedor.

Tudo isso, programado sozinho, sem equipe técnica e sem real de investimento externo. Num mercado em que muitos players surgem como meras interfaces em cima de modelos genéricos, a gênese da Advoga IA foi a oposta: construir a infraestrutura desde a camada de dados.

Fragmentação: a dor que insiders haviam normalizado

A fricção identificada por Rossano não era apenas “falta de IA” no Direito. Era o fato de o trabalho jurídico ter se dividido em ilhas tecnológicas:

  • ERPs jurídicos que cuidam de cadastro, agenda e algumas rotinas.
  • Monitoradores processuais focados exclusivamente em andamentos.
  • Editores de texto ou modelos de IA isolados, que geram peças sem conexão com a gestão do escritório.
  • Calculadoras avulsas para trabalhista, revisional, penal, cada uma com sua lógica.

Para quem olha de dentro, isso parece inevitável. Para quem vem da clínica integrada, isso é uma anomalia. E foi exatamente aí que entrou a abordagem observada em fundadores tech globais que vêm de áreas adjacentes: identificar fricções que insiders já aceitaram e atacá-las com arquitetura de produto.

No caso da Advoga IA, essa arquitetura se expressa como uma plataforma que, desde o início, foi pensada para resolver a fragmentação do stack jurídico: em vez de empilhar ferramentas, unificar em um só ambiente os pilares de produção, decisão e operação do escritório.

Por que essa origem importa para o futuro da advocacia

O ponto aqui não é romantizar a história do “founder solitário” que programa de madrugada. É entender por que essa combinação específica — ausência de formação jurídica, ausência de equipe de engenharia inicial, ausência de capital externo — gera um tipo diferente de solução para o mercado.

Ela obriga a plataforma a nascer:

  1. Profundamente orientada a problema
    Sem budget para “experimentar por experimentar”, cada linha de código precisa responder a uma dor real. Não há espaço para features cosméticas.

  2. Livre dos vícios do software jurídico legado
    Sem herdar código antigo, sem reproduzir telas de ERP dos anos 2000, a Advoga IA pôde repensar fluxos a partir da pergunta: “Como o trabalho deveria ser, se fosse desenhado hoje, com IA desde o começo?”.

  3. Capaz de dialogar com a advocacia como negócio, não só como processo
    A vivência de gestão em saúde e a exposição à lógica de healthtechs deram a Rossano repertório para olhar escritórios como operações que precisam de previsibilidade, escala e eficiência — não apenas de um “sistema para cumprir prazos”.

Num cenário em que o mercado brasileiro de IA jurídica já conta com soluções de todos os tipos — desde ferramentas de consulta rápida, como a Jus IA, voltada a advogados solo e pequenos escritórios, até plataformas mais robustas — a história da Advoga IA serve como lembrete de algo incômodo: os próximos saltos de produtividade da advocacia provavelmente virão de quem estiver disposto a questionar o óbvio.

O que isso sinaliza para quem lidera escritórios hoje

Para sócios e gestores que tratam a advocacia como atividade séria, a trajetória da Cognifyx traz três recados práticos:

  • Tecnologia relevante em Direito não nasce de adereços, mas de reconstrução de fluxo.
    IA que só “redige” sem estar acoplada à gestão, aos prazos, às finanças e à jurisprudência tende a virar atalho perigoso.

  • Outsiders bem informados estão redesenhando o setor.
    Assim como a saúde e as finanças foram reconfiguradas por quem veio de fora, a advocacia vive agora o mesmo movimento. Resistir a esse fato não impede a mudança; só atrasa a adaptação do escritório.

  • A era do empilhamento de ferramentas está acabando.
    O futuro pertence a plataformas que entendem o escritório como unidade integrada de informação, não como colagem de sistemas. E isso exige fundamentos técnicos sérios — como os que foram plantados, linha por linha, no código inicial da Advoga IA.

Em última instância, a história do dentista que programou sozinho a infraestrutura de uma plataforma de IA jurídica diz menos sobre biografias improváveis e mais sobre prioridades. Enquanto parte do mercado discute cosmética de interface, há quem esteja reescrevendo o próprio conceito de software jurídico a partir da lógica da integração e da IA aplicada a problemas reais.

Cabe aos escritórios decidir de que lado dessa linha querem estar: do lado que adapta o trabalho ao limite das ferramentas antigas, ou do lado que escolhe ferramentas nascidas justamente para expandir o que a advocacia pode fazer.


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