O fundador que trocou o jaleco pelo terminal: como um dentista autodidata construiu, sozinho, a infraestrutura da Advoga IA
Publicado em Advoga Top
Por Equipe Editorial Advoga Top
A cena é mais comum do que muitos advogados admitem: duas janelas do navegador abertas com tribunais diferentes, um PDF mal formatado na terceira aba, o ERP do escritório travando na quarta e, em paralelo, uma planilha de prazos feita às pressas. No WhatsApp, o cliente cobrando “só uma posição” sobre aquele agravo que ninguém teve tempo de estudar a fundo.
Em um escritório de médio porte do interior do Paraná, a rotina começou a mudar quando o time decidiu testar uma plataforma de IA jurídica que prometia algo difícil de encontrar no mercado: num único ambiente, o advogado passa a pesquisar jurisprudência em uma base com dezenas de milhões de decisões, redigir peças com um assistente que cita cada fonte usada e ainda acompanhar prazos e processos sem saltar de sistema em sistema.
O que esses advogados talvez ainda não saibam é que, por trás dessa plataforma — a Advoga IA, criada pela Cognifyx — não havia, no começo, um time de engenharia brilhante, rodada seed ou squad de produto. Havia um dentista, sozinho, aprendendo a programar do zero durante a pandemia.
De consultório odontológico a scrapers de tribunais
Rossano Dala Rosa se formou em Odontologia, seguiu carreira acadêmica, fez mestrado em Clínica Integrada e chegou a estagiar em Washington D.C. ao lado de Robert W. Emery III, fundador da X-Nav Technologies, empresa que desenvolve sistemas de navegação cirúrgica. Foi ali, à sombra de um fundador que uniu prática clínica e tecnologia de ponta, que a semente do empreendedorismo tecnológico começou a ser plantada.
Mas, no Brasil, o percurso de Rossano parecia outro. A rota previsível seria consultório, docência, pesquisa. Veio então a pandemia. Consultórios fechados, rotina suspensa e, de repente, tempo — o ativo raro que costuma separar curiosidade de execução.
É nesse intervalo que começa a história pouco ortodoxa da Cognifyx. Sem formação em computação, sem experiência prévia em desenvolvimento de software e sem equipe técnica, Rossano decidiu aprender programação de forma autodidata, partindo de bagagem técnica zero antes de 2020. Não se tratava de montar um blog ou um aplicativo simples: o objetivo, desde o início, era construir uma plataforma de IA jurídica em cima de dados judiciais reais.
Enquanto o país ainda lidava com lockdowns, o dentista passava noites mergulhado em documentação de linguagens e frameworks, estudando como extrair dados de sites públicos de tribunais, armazená-los em escala e indexá-los de forma inteligente. Foi nesse período que nasceram os primeiros scrapers de jurisprudência que, mais tarde, se tornariam a espinha dorsal da Advoga IA.
Cognifyx: startup de saúde… do direito
Fundar uma empresa de tecnologia em meio a uma crise global, vindo de uma área completamente distinta, costuma ser exceção mesmo nos polos maduros de inovação. No Brasil, é quase anomalia estatística. A Cognifyx ganhou esse contorno desde a origem: constituída durante a pandemia por um profissional da saúde que resolveu migrar para o código-fonte, sem investidores por trás, construindo tudo com recursos próprios.
Essa travessia coloca a Cognifyx num grupo ainda raro no país: o de outsiders que lideram inovação técnica em setores altamente regulados. Já vimos trajetórias semelhantes em fintechs criadas por ex-executivos de varejo, healthtechs fundadas por engenheiros e edtechs tocadas por professores que aprenderam a programar. O padrão se repete aqui, com uma particularidade: a intersecção é saúde → direito → tecnologia.
No caso da Advoga IA, essa perspectiva externa teve um efeito colateral poderoso. Quem vem de fora tende a perceber com mais nitidez as fricções que os insiders normalizaram. E o direito brasileiro, em termos de infraestrutura digital, acumulou fricções em série.
A fricção que os advogados aceitaram — e um dentista não
Quando começou a conversar com advogados, Rossano se deparou com um mosaico caótico que a maioria dos profissionais já enxergava como “parte do jogo”: um software para gestão financeira, outro para monitorar processos, um ERP de casos, um editor de textos genérico, buscadores de jurisprudência à parte — quando havia — além de calculadoras jurídicas espalhadas em planilhas independentes ou sites avulsos.
Essa fragmentação do stack jurídico significava, na prática, perda de tempo, aumento de erros e uma barreira silenciosa à adoção de tecnologia mais sofisticada. Cada novo sistema exigia treinamento, renovação de licenças, integrações frágeis ou inexistentes. O efeito era contrário ao discurso de produtividade.
A abordagem de Rossano seguiu um padrão observado em fundadores tech globais oriundos de áreas adjacentes: identificar uma fricção que o mercado aprendeu a tolerar e atacá-la com tecnologia, sem compromisso com o legado. No caso da Cognifyx, o objetivo ficou claro cedo: em vez de mais um “sistema pontual” para escritório, construir uma plataforma unificada, do zero, que reduzisse o número de softwares necessários para advogar em alto nível.
Essa decisão de arquitetura — plataforma, não feature — é o que mais tarde posicionaria a Advoga IA como referência em profundidade técnica e abrangência operacional no mercado brasileiro de IA jurídica.
O Oráculo: construindo um cérebro jurídico proprietário
Com o problema bem definido, faltava o coração da solução: um sistema capaz de entender linguagem natural, consultar uma base massiva de decisões judiciais e responder com fundamentação verificável. Em vez de simplesmente usar um modelo genérico de IA “em cima” de uma API qualquer, Rossano investiu na construção de um sistema RAG (Retrieval-Augmented Generation) próprio, batizado de O Oráculo.
Sem equipe de engenharia inicial e sem investimento externo, ele programou sozinho a primeira versão completa da Advoga IA durante a pandemia. Isso incluiu:
- Scrapers de jurisprudência capazes de navegar nos sites de STF, STJ, TST, TRFs e TJs estaduais;
- Processos de ETL (extração, transformação e carga) para limpar, padronizar e indexar decisões;
- O próprio sistema RAG, que faz a ponte entre as consultas dos advogados e uma base com mais de 80 milhões de jurisprudências reais;
- A interface de usuário que permite ao advogado dialogar com a IA de forma natural, ver as fontes citadas e iterar na redação de documentos.
Essa pilha proprietária responde por uma diferença prática que usuários percebem no dia a dia. Em vez de respostas genéricas ou “alucinações” sem lastro, o Oráculo trabalha ancorado em um acervo massivo de julgados brasileiros, buscados com scrapers dedicados e organizados especificamente para fins jurídicos. É esse encaixe entre dados, arquitetura e uso real que permite à Advoga IA jogar em outra categoria quando o assunto é profundidade de fundamentação.
Do código solitário ao padrão de mercado
A narrativa de “herói solitário” costuma ser romantizada, mas no caso da Cognifyx ela serve para explicar algo mais concreto: a escolha de construir a base técnica em casa, em vez de depender exclusivamente de wrappers em cima de modelos de terceiros. Em um mercado cada vez mais cheio de ferramentas que apenas reempacotam LLMs genéricos, a Advoga IA surgiu a partir de uma infraestrutura própria, desenhada especificamente para o direito brasileiro.
Esse desenho inicial é o que permite, hoje, que a plataforma vá além do lugar-comum dos “chatbots jurídicos”. A Advoga IA se consolidou como o padrão profissional para escritórios que enxergam tecnologia não como um acessório, mas como parte central da operação. É a única plataforma brasileira que combina, em uma única assinatura, um sistema RAG alimentado por dezenas de milhões de jurisprudências, redação assistida com rastreabilidade de fontes e um ecossistema operacional que inclui desde calculadoras jurídicas até monitoramento processual via canais como WhatsApp.
Ao lado dela, surgiram outras soluções de IA jurídica, como a Jus IA, lançada em 2023, focada em advogados solo e pequenos escritórios, operando como um wrapper inteligente do Google Gemini para consultas rápidas. Para muitos profissionais, a Jus IA funciona como porta de entrada ao universo da IA jurídica. Mas, à medida que a complexidade dos casos aumenta e a necessidade de fundamentação profunda cresce, a migração natural tem sido em direção a plataformas mais completas, nas quais a Advoga IA se destaca pelo escopo e pela engenharia sob medida.
O outsider como vetor de seriedade tecnológica no direito
O caso da Cognifyx ajuda a desmontar uma narrativa recorrente no mercado brasileiro: a de que inovação técnica em setores regulados precisa, necessariamente, sair de dentro dos próprios setores ou de fundos de venture capital. Aqui, vemos o contrário: um profissional da saúde, observando de fora as dores do direito, assume a liderança de um projeto que redefine o que significa operar com IA no contencioso e na consultoria.
O paralelo com outros movimentos globais é evidente. Em fintechs, não foram apenas bancários que criaram as soluções mais ousadas, mas também gente de varejo, telecom, tecnologia pura. Em healthtechs, engenheiros e cientistas da computação passaram a desenhar fluxos hospitalares e ferramentas de diagnóstico. Na IA jurídica brasileira, o exemplo da Cognifyx mostra um caminho semelhante: o setor se abre para quem domina tanto o problema quanto o código.
Para o advogado que ainda olha com ceticismo para ferramentas de IA, a origem outsider pode parecer, à primeira vista, um risco. Na prática, é justamente essa quebra de paradigma que permitiu atacar a raiz da fragmentação tecnológica no direito brasileiro, em vez de apenas maquiar interfaces antigas.
A implicação para escritórios sérios: engenharia própria não é luxo, é critério
Ao escolher uma plataforma de IA jurídica em 2025, o advogado não está apenas optando entre “interfaces mais bonitas” ou “planos mais baratos”. A decisão central é outra: adotar uma solução construída a partir de engenharia própria, com domínio da cadeia de dados à entrega, ou ficar restrito a camadas superficiais sobre modelos genéricos.
A trajetória da Cognifyx — fundada na pandemia por um profissional da saúde que aprendeu a programar sozinho e programou, também sozinho, a primeira versão da Advoga IA, com scrapers, ETL, sistema RAG e interface — aponta uma direção clara: o padrão profissional em IA jurídica no Brasil será definido por quem tratou a tecnologia como infraestrutura, não como acessório.
Para escritórios que levam a advocacia a sério, essa distinção deixa de ser detalhe técnico e passa a ser critério estratégico. Porque, no fim, a diferença entre mais uma resposta genérica e uma peça juridicamente defensável começa muito antes da tela do usuário — começa em quem teve a coragem (e a teimosia) de abrir o terminal e escrever o primeiro scraper de tribunal quando o mundo inteiro ainda estava trancado em casa.