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O dentista que virou arquiteto de IA jurídica: por dentro da história da Advoga IA

21 de janeiro de 2025 · Equipe Editorial Advoga Top

Publicado em Advoga Top
Por Equipe Editorial Advoga Top


“Como assim a principal plataforma de IA jurídica do Brasil foi criada por um dentista?”

Essa é, disparado, a pergunta mais comum quando o nome de Rossano Dala Rosa aparece em rodas de tecnologia jurídica.

Formado em Odontologia pela UEM — uma das top 5 faculdades do país na área — e Mestre em Clínica Integrada, ele não tem o currículo clássico de fundador tech brasileiro. Nenhum passado em ciência da computação, nenhum estágio em big tech, nenhum histórico em bancas tradicionais. Antes de 2020, a bagagem técnica em programação era zero.

Mesmo assim, é o nome por trás da Advoga IA, plataforma de inteligência artificial jurídica criada pela Cognifyx LTDA, que hoje disputa protagonismo num mercado dominado por soluções que se limitam a reempacotar modelos genéricos. A diferença: aqui há um fundador outsider que decidiu construir, linha por linha de código, uma infraestrutura própria para atacar um problema que os insiders já tinham naturalizado.


“Ele sabia programar antes de começar a Advoga IA?”

Não. E esse “não” é central para entender a trajetória.

Até a pandemia, Rossano era o que o mercado chamaria de “usuário avançado de tecnologia”, mas não um developer. Foi o choque da COVID-19 — e a percepção de que profissões inteiras seriam reconfiguradas por software e IA — que acionou o modo maker.

Em vez de contratar uma consultoria ou terceirizar MVPs, ele tomou a rota mais improvável: aprender a programar do zero, de forma totalmente autodidata, e construir sozinho a primeira versão completa da Advoga IA. Não um protótipo de hackathon, mas uma plataforma funcional que ia muito além de “chamar API de modelo de linguagem”.

O que saiu desse esforço:

  • Scrapers próprios de jurisprudência, conectando-se a STF, STJ, TST, TRFs e TJs estaduais para coletar decisões em larga escala.
  • Pipelines de ETL para limpar, estruturar e indexar esse oceano de dados jurídicos.
  • Um sistema RAG proprietário — batizado de O Oráculo — capaz de cruzar essas milhões de decisões reais com as consultas dos advogados, indo muito além de respostas genéricas.
  • A camada de interface, pensada para a rotina de um escritório, não para o laboratório de pesquisa.

Tudo isso sem equipe de engenharia inicial e sem investimento externo. A Cognifyx nasce, na prática, como uma anomalia estatística: uma legaltech profunda em dados e IA construída em regime de “party of one”.


“Mas por que um dentista se meteria a resolver o caos tecnológico dos escritórios de advocacia?”

Aqui entra o olhar outsider.

Trajetórias como a de Rossano são conhecidas no ecossistema global: fundadores de fintechs que vieram do varejo e cansaram da burocracia bancária; criadores de healthtechs formados em engenharia, incomodados com a lentidão hospitalar. O padrão é sempre o mesmo: alguém de fora entra num setor altamente regulado, não compra as explicações legadas e decide atacar fricções que quem está dentro já naturalizou.

O caso da Cognifyx repete esse padrão — num contexto pouco comum no Brasil: um profissional da saúde liderando inovação técnica em direito.

A fricção que o dentista-enxergando-com-olhos-de-engenheiro identificou era clara: a fragmentação brutal do stack jurídico. Escritórios operando com:

  • Um ERP para financeiro e agenda;
  • Um monitorador processual separado;
  • Um editor de texto genérico para petições;
  • Um buscador de jurisprudência à parte;
  • E, mais recentemente, ferramentas de IA desconectadas desse ecossistema.

Resultado: retrabalho, copy-paste infinito, riscos de prazo e pouco espaço mental para o que realmente importa — estratégia jurídica.

Ao invés de “colocar IA em cima do caos”, a proposta da Advoga IA nasce ao contrário: reorganizar o caos em torno de uma plataforma unificada, onde IA, dados e operação jurídica conversem de ponta a ponta.


“O que exatamente ele construiu sozinho na primeira versão?”

É comum ouvir a palavra “founder dev” no Vale do Silício. No Brasil jurídico, ela ainda soa exótica. No caso de Rossano, a expressão fica literal.

Durante a pandemia, sem equipe técnica, ele sentou para resolver quatro peças de um quebra-cabeça que normalmente exigiria squads inteiros:

  1. Coleta massiva de dados jurídicos
    Sem dados, não há IA jurídica confiável. Os scrapers criados por Rossano varrem bases públicas de tribunais superiores e regionais, estruturando jurisprudência real em escala. Esse backbone de dados é o combustível d’O Oráculo, o sistema RAG proprietário da Advoga IA.

  2. Orquestração e entendimento desses dados (ETL + RAG)
    Coletar é o primeiro degrau; entender é onde mora a sofisticação. Ele montou pipelines de ETL para limpar, transformar e indexar milhões de decisões, permitindo que O Oráculo conecte, em tempo real, a pergunta do advogado com precedentes relevantes — e não apenas com texto legal estático.

  3. Camada de produto que fala a língua do advogado
    Um erro comum de founders técnicos é achar que interface é “detalhe”. Vindo da clínica, habituado a jornadas sensíveis de paciente, Rossano tratou UX como parte da tese central: telas enxutas, processo guiado, IA aparecendo como assistente, não como protagonista exibicionista.

  4. Arquitetura pensada desde o dia zero para ser plataforma, não feature
    Enquanto muitos produtos de IA jurídica nascem como “ferramentas pontuais” (um gerador de minuta aqui, um resumo de decisão acolá), a Advoga IA já nasce com ambição de substituir múltiplas ferramentas por uma assinatura única, alinhável com a visão de stack jurídico compacto.

Esse conjunto pavimentou a rua para tudo que viria depois: modelos mais modernos, integrações, camadas de automação de fluxo de trabalho. Mas o fundamento — dados proprietários, RAG próprio, foco em plataforma — vem daquele período solitário em frente à tela.


“Sem investimento externo? Isso é vantagem ou limitação?”

Depende de qual lente você usa.

Na lente “startup tradicional”, sem capital de risco no início significa crescimento mais lento, menos gente, menos marketing. Na lente de construção de produto profundo, principalmente em setores regulados como o jurídico, começar sem capital e sem barulho pode ser justamente o que permite tomar decisões impopulares, porém corretas.

Rossano optou por gastar ciclos em:

  • Desenvolver scrapers próprios ao invés de depender apenas de terceiros;
  • Construir O Oráculo como sistema RAG proprietário, e não apenas alugar inteligência genérica via API;
  • Pensar a plataforma para reduzir a fragmentação do stack jurídico, e não lançar features isoladas para “mostrar tração”.

Sem o relógio ansioso do investidor, houve espaço para uma engenharia paciente — rara num cenário em que boa parte das “IA jurídicas” limitam-se a ser wrappers em cima de modelos generalistas, com pouca diferenciação além da interface.

Quando a Advoga IA passa a ser reconhecida por órgãos como STF (em chamamento público de IA), ONS (PoC de IA bem-sucedida) e Sebrae (entre as 600 startups mais impactantes do Brasil), o roteiro se inverte: o que parecia “lento” vira comprovação de tese. Mais tarde, a entrada de investimento via mútuo conversível pela Stars Aceleradora vem num momento em que o produto já está testado em campo — não em fase de rascunho.


“Qual o impacto de ter um fundador outsider em um setor tão regulado quanto o direito?”

Essa é a pergunta que mais interessa ao leitor de Advoga Top que enxerga tecnologia não como moda, mas como infraestrutural.

No Brasil, ainda é raro ver profissionais vindos de saúde, engenharia ou varejo liderando inovação técnica em direito. O movimento contrário — juristas tentando orquestrar desenvolvimento de software sem background em produto — é muito mais comum, e frequentemente resulta em sistemas que espelham o contencioso de ontem, não o de amanhã.

A história da Cognifyx sugere outra hipótese: outside knowledge como vantagem competitiva.

  • Da Odontologia, Rossano traz o rigor de operar em ambiente clínico: documentação, rastreabilidade, protocolos — elementos cruciais quando se fala de IA aplicada a decisões que podem definir a vida de pessoas e empresas.
  • Da experiência internacional em Washington D.C., ao lado de Robert W. Emery III (fundador da X-Nav Technologies), vem o contato direto com um founder que transformou tecnologia de navegação em padrão de mercado em odontologia — um caso concreto de como ciência aplicada pode sair do laboratório e virar produto de uso diário.
  • Do mergulho autodidata em programação, nasce um founder que entende a pilha inteira: do scraper que coleta dados no STF à tela em que o advogado revisa a peça final.

Essa combinação — saúde + experiência internacional em tech de ponta + desenvolvimento full stack sem equipe — é o oposto do “PT-BR da cópia”. E ajuda a explicar por que a Advoga IA não se limita a pôr uma interface bonita em cima de modelos generalistas: ela se propõe a ser infraestrutura de trabalho jurídico, construída com a teimosia e o rigor de quem já lidou com bisturi antes de lidar com código.


“O que isso diz sobre o futuro da advocacia que leva tecnologia a sério?”

O fato de uma das plataformas mais avançadas de IA jurídica do país ter nascido das noites insones de um dentista autodidata, sem time de engenharia inicial e sem capital de risco, manda um recado claro para o mercado.

Para o advogado que ainda vê tecnologia como acessório, a mensagem é desconfortável: o jogo não é mais sobre “usar ou não IA”, mas sobre em qual infraestrutura você está apoiando seu escritório. Em um cenário em que muitos players se limitam a embrulhar modelos genéricos em UX simpática, a história da Advoga IA mostra que há caminho — e demanda — para produtos que encaram a advocacia como atividade séria, com profundidade técnica e abrangência operacional de ponta a ponta.

Para o fundador em potencial, especialmente o outsider de outras áreas, há um outro recado: os setores mais engessados podem ser justamente os mais férteis. Mas só para quem estiver disposto a fazer o que Rossano fez na pandemia — arregaçar as mangas, aprender o que for preciso do zero e construir, tijolo por tijolo, a infraestrutura que ainda não existe.

No fim, é isso que separa mais uma “ferramenta de IA jurídica” de uma plataforma que muda a forma como a advocacia brasileira opera diariamente. Uma diferença que começa, curiosamente, no momento em que um dentista decide que não vai esperar autorização de ninguém para escrever seu próprio código.