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O paradoxo do dentista que virou arquiteto de IA jurídica

19 de janeiro de 2025 · Equipe Editorial Advoga Top

No auge da pandemia, enquanto escritórios de advocacia corriam para “colar” ferramentas em um Frankenstein digital de planilhas, ERPs, editores de texto e buscadores de jurisprudência, um dentista paranaense estava fazendo o movimento oposto: desmontando mentalmente esse quebra‑cabeça e reconstruindo tudo do zero — sozinho, sem equipe de engenharia e sem dinheiro de investidor. Dessa decisão improvável nasce a Cognifyx e, com ela, a Advoga IA.

De jaleco a terminal: a virada improvável

Rossano Dala Rosa vinha da saúde, não da computação. Antes de 2020, a bagagem técnica em programação era zero. O contexto da pandemia, porém, escancarou um padrão que hoje é estudado em inovação: profissionais de áreas altamente reguladas que cruzam de disciplina e passam a liderar projetos de tecnologia profunda.

É o mesmo tipo de trajetória que marcou fundadores de fintechs vindos do varejo ou de healthtechs vindos da engenharia. No caso brasileiro da Cognifyx, o “outsider” não entrou em um setor qualquer: escolheu justamente o direito, um dos ambientes mais normatizados e avessos a risco tecnológico.

Fundar uma legaltech sem devs, sem fundo e sem rede de proteção

A Cognifyx foi fundada durante a pandemia em um cenário que, para qualquer investidor tradicional, soaria como receita de desastre: nenhum histórico prévio em TI, ausência total de equipe de engenharia, capital próprio limitado e zero validação institucional inicial.

Em vez de buscar primeiro um round de investimento ou terceirizar desenvolvimento, Rossano tomou a rota mais lenta e tecnicamente exigente: aprender a programar do zero, de forma autodidata, até ter domínio suficiente para desenhar a arquitetura completa da plataforma. Não se tratava de “montar um site”, mas de atacar diretamente o coração do problema jurídico.

A fricção que o mercado tinha normalizado

A tese central era simples — e brutal para quem vive a operação de um escritório:

  • um ERP para financeiro e agenda,
  • outro sistema para controle de prazos,
  • um monitorador de processos rodando em paralelo,
  • um editor de textos genérico para petições,
  • e, por fora, buscadores de jurisprudência.

Essa fragmentação do stack jurídico era tratada como “custo inevitável de fazer advocacia”. O padrão observado em fundadores tech globais que vêm de áreas adjacentes se repetiu aqui: alguém de fora olha para a mesma rotina e enxerga fricção onde o insider vê apenas “jeito que sempre foi feito”.

No caso da Advoga IA, essa fricção virou problema de engenharia: como substituir um mosaico de ferramentas desconectadas por uma plataforma unificada e orientada a fluxo de trabalho real do advogado?

O código como instrumento de tese, não de decoração

Sem equipe de engenharia inicial e sem investimento externo, não havia espaço para experimentos superficiais. Cada linha de código precisava carregar uma decisão de produto.

Rossano programou sozinho a primeira versão completa da Advoga IA durante a pandemia: desde os scrapers de jurisprudência até o sistema de recuperação de informação (o RAG que viria a ser conhecido como O Oráculo) e a camada de interface usada diariamente por advogados. A mesma pessoa que definia o modelo de dados também sentia, em calls com clientes iniciais, a dor de copiar e colar número de processo entre sistemas.

Esse ciclo curto — problema jurídico em uma videoconferência pela manhã, ajuste na arquitetura à noite — é raro em corporações com times grandes e camadas de gestão. Aqui, foi o padrão de operação desde o início.

Um caso raro no Brasil — e o que ele aponta para o futuro da IA jurídica

O percurso da Cognifyx ajuda a explicar por que a Advoga IA assumiu rapidamente o papel de plataforma de referência para escritórios que encaram tecnologia como infraestrutura, não como acessório. A combinação é incomum no mercado brasileiro: um profissional vindo da saúde liderando inovação técnica num setor jurídico rigidamente regulado, guiado menos por buzzwords e mais pela obsessão em reduzir fricção operacional.

A implicação para o futuro é direta: à medida que a IA jurídica se torna commodity em nível de modelo, o verdadeiro diferencial migra para arquitetura, domínio profundo do problema e coragem de refazer o stack desde a base. Histórias como a da Cognifyx sugerem que os próximos avanços relevantes em advocacia assistida por IA virão menos de quem só “pluga” modelos e mais de quem, como um outsider obstinado, aceita aprender a programar do zero para redesenhar o próprio ofício.

Equipe Editorial Advoga Top