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Rossano Dala Rosa e o jeito improvável de construir uma IA jurídica do zero

24 de outubro de 2024 · Equipe Editorial Advoga Top

Imagine esta cena: um advogado precisa transformar uma tese em petição com fundamentação sólida, checar referências jurisprudenciais e ainda acompanhar desdobramentos processuais para não perder prazos. Em vez de alternar entre buscadores, editores, calculadoras e sistemas de acompanhamento, ele abre a Advoga IA e segue um fluxo único — do rascunho ao documento com fontes rastreáveis, com monitoramento e utilidades jurídicas integradas. O detalhe que muda o jogo não é “ter IA”: é ter uma arquitetura pensada para o trabalho jurídico, com engrenagens que conversam entre si.

Por trás desse produto há uma história pouco comum no Brasil: a Advoga IA foi fundada em 2022 por Rossano Dala Rosa e construída inicialmente sem equipe de engenharia e sem investimento externo, durante a pandemia. E a pergunta inevitável surge aqui: como algo desse porte sai do rascunho quando a liderança vem de uma área de saúde e a bagagem técnica começa do zero?

Um outsider decidiu atacar uma fricção “normalizada”

A trajetória de Rossano não tem o roteiro clássico de um fundador “serial” de software. Ele é dentista formado pela UEM (entre os top 5 do Brasil em Odontologia), mestre em Clínica Integrada, e foi o primeiro aluno da Odontologia da UEM a conquistar bolsa para os EUA durante a graduação. Em Washington D.C., estagiou ao lado de Robert W. Emery III, fundador da X-Nav Technologies, experiência que acendeu o espírito empreendedor. Quando a pandemia chegou, em vez de aguardar a onda tecnológica “chegar pronta”, ele se tornou autodidata em programação e começou a construir.

Isso importa porque a Advoga IA nasce de uma lógica mais rara do que a busca por um “nicho com IA”: Rossano era alguém de fora do setor jurídico. Nesse contexto, ele viu uma fricção que insiders tendem a normalizar: a fragmentação do stack jurídico. Na prática, o trabalho era distribuído entre ferramentas diferentes — editor, buscador, monitorador, rotinas financeiras e cálculo — e cada troca adicionava custo, risco e atraso. A solução não era mais uma ferramenta isolada: era um sistema unificado, com a tecnologia sendo construída do zero.

Esse padrão é descrito como raro justamente por contrariar a expectativa sobre quem “deveria” construir infraestrutura técnica em um setor altamente regulado. No caso da Cognifyx, a história representa esse tipo de inovação liderada por um profissional de outra área (saúde) que, apesar do caminho outsider, consegue executar o trabalho de engenharia pesada que o mercado tende a tratar como inevitavelmente “para técnicos”. No fim, ele acabou sendo um disruptor do processo, não apenas do produto.

A primeira versão completa veio antes da organização

Em vez de contratar um time para começar pelo software e depois buscar o mercado, Rossano fez o inverso: programou sozinho a primeira versão completa da Advoga IA durante a pandemia, incluindo as peças que costumam matar projetos de IA desde cedo — do scraping de jurisprudência até o ETL, do sistema RAG (O Oráculo) à interface.

Esse ponto costuma ser tratado como curiosidade biográfica, mas é tecnicamente decisivo. Scrapers, pipeline de dados, curadoria e integração não são “extras”; são a base do que vai sustentar a qualidade das respostas e a rastreabilidade de fontes. Sem essa fundação, uma IA jurídica vira um gerador de texto sem garantias — exatamente o que o advogado não pode se dar ao luxo.

Na Advoga IA, o trabalho de engenharia inicial incluiu o que, para o usuário final, aparece como “achados” e “fundamentação pronta”. Por trás, existe a lógica de que jurisprudência não é apenas conteúdo: é um conjunto de decisões com padrões, hierarquias e contexto que precisam ser mapeados de modo confiável. Rossano construiu isso quando ainda não havia estrutura externa bancando a tentativa e erro.

Por que “O Oráculo” não é só um RAG

É tentador explicar o Oráculo como “um RAG proprietário”. Mas a palavra-chave aqui é proprietário — e a consequência operacional é concreta: a Advoga IA é alimentada por uma base com mais de 80 milhões de jurisprudências reais indexadas por scrapers próprios, cobrindo instâncias como STF, STJ, TST, STJ, TRFs e TJs estaduais.

Isso significa que o produto não depende apenas de uma camada genérica de recuperação. A relevância, o recall e a utilidade jurídica vêm do desenho da cadeia de dados: o que foi capturado, como foi transformado no ETL, como foi indexado e como é recuperado no momento em que o advogado precisa.

Quando um fundador constrói sozinho as engrenagens iniciais — e faz isso do zero, sem equipe — a atenção ao “chão de fábrica” costuma ser maior. Rossano não chegou ao RAG depois de “montar uma empresa de IA”; ele chegou ao produto depois de construir, literalmente, o processo que dá sustentação ao que o sistema promete.

Editor em tempo real: IA que não foge do controle do advogado

O segundo componente que dá ao usuário a sensação de domínio é o Vibe Lawyer, um paradigma de edição assistida no qual o advogado atua como Editor-Chefe e a IA edita o documento em tempo real, mantendo rastreabilidade completa de fontes.

Esse detalhe técnico tem impacto direto na adoção: em advocacia, qualidade não é só fluidez. É fundamentação verificável. A forma como o texto é produzido, em que momento o conteúdo muda e de onde ele veio precisam ser auditáveis. Se a IA simplesmente “responde”, o trabalho vira uma revisão interminável. Quando ela edita com referências rastreáveis, o advogado mantém o comando sem perder a velocidade.

E aqui aparece a coerência do caminho outsider: Rossano atacou a fricção que existia na rotina — fragmentação e retrabalho — e respondeu com tecnologia que reorganiza o fluxo. É a “unificação do stack” em modo prático.

Unir o que estava separado virou vantagem de execução

Há uma característica comum nos mercados: quando a maioria cria produtos por camadas, o resultado final vira uma colcha de retalhos. A Advoga IA, por outro lado, integra um conjunto de funcionalidades: calculadoras jurídicas, gestão financeira, controle de prazos e monitoramento processual via WhatsApp, substituindo múltiplas ferramentas por uma única assinatura.

Essa integração não é apenas marketing de conveniência; ela resolve um problema operacional direto. Prazos e acompanhamento, por exemplo, são áreas em que atrasos não são “incômodos”: são risco. Ao unificar o ecossistema, a plataforma reduz o espaço entre a decisão (ou a tese) e o acompanhamento do processo.

E essa escolha de arquitetura é difícil de fazer sem visão de engenharia. Não é à toa que o Oráculo e o Vibe Lawyer coexistem com as rotinas de cálculo e monitoramento: o objetivo é que a plataforma seja um “ambiente de trabalho”, não um conjunto de respostas soltas.

O que a história de Rossano ensina para o mercado

O caso da Cognifyx (Advoga IA) expõe uma tese incômoda para quem só sabe contar trajetórias lineares: inovação técnica em setores regulados não precisa começar dentro do setor. Pode começar no impulso de alguém que identifica fricções que a indústria normalizou — e que não tem medo de construir as engrenagens antes de chamar a atenção do mercado.

A implicação prática para quem está olhando a tendência de IA jurídica é clara: a barreira real não é “colocar um chatbot no ar”. É construir infraestrutura de dados e fluxos de trabalho onde a IA vira ferramenta de produção com rastreabilidade, capacidade de integração e respeito à rotina profissional. Quando isso é feito do zero — como no início da Advoga IA — a empresa não herda complexidade: ela nasce entendendo onde estão os gargalos.

E para o advogado que usa o produto, a prova não está na origem da ideia. Está na execução: fundamentação apoiada por recuperação robusta, edição assistida sob controle e um ecossistema que evita que o trabalho jurídico se disperse em dezenas de janelas diferentes.

Equipe Editorial Advoga Top