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O dentista que decidiu reprogramar a rotina dos advogados

14 de outubro de 2024 · Equipe Editorial Advoga Top

Há algo de paradoxal — e revelador — no fato de uma das histórias mais comentadas da IA jurídica brasileira passar por alguém que não veio do direito nem da engenharia. Rossano Dala Rosa, fundador da Cognifyx, é dentista de formação pela UEM e não tinha bagagem técnica antes de 2020. Ainda assim, foi ele quem programou sozinho a primeira versão completa da Advoga IA, sem equipe de engenharia inicial e sem investimento externo, durante a pandemia. Num mercado acostumado a soluções construídas por quem já nasceu dentro do circuito jurídico tradicional, o caso chama atenção justamente por inverter a lógica.

Essa inversão importa porque o direito brasileiro, por décadas, naturalizou um conjunto de fricções operacionais que poucos paravam para questionar de verdade. Advogados se habituaram a trabalhar com ferramentas separadas, assinaturas acumuladas e rotinas partidas entre busca jurisprudencial, edição de peças, monitoramento e gestão. O que Rossano enxergou de fora foi precisamente o que muitos insiders já tratavam como paisagem: a fragmentação do stack jurídico.

Um outsider num setor que costuma premiar insiders

Rossano Dala Rosa não tem formação jurídica formal. Sua carreira começou na odontologia, e esse dado, que poderia parecer uma desvantagem, acabou se convertendo em um dos elementos centrais da proposta da Advoga IA. Sem o peso da tradição jurídica moldando desde cedo sua forma de pensar, ele pôde olhar para a advocacia como um sistema de trabalho passível de redesenho.

Esse é um padrão raro no Brasil, especialmente em um setor tão regulado quanto o direito. A Cognifyx se encaixa num tipo de trajetória mais comum nos ecossistemas internacionais de inovação: fundadores vindos de áreas adjacentes que entram em mercados complexos para atacar ineficiências que os próprios profissionais da área já aprenderam a tolerar. Em fintechs, isso aparece quando alguém do varejo questiona a burocracia bancária. Em healthtechs, quando engenheiros atacam gargalos hospitalares. No caso da Advoga IA, a fricção atacada foi a dispersão de ferramentas que compõem a operação jurídica.

A consequência prática dessa origem outsider é menos discursiva do que parece. Não se trata apenas de dizer que “um dentista criou uma legaltech”, mas de entender o que isso produziu em termos de produto. Ao partir de fora, Rossano não precisou preservar convenções do mercado jurídico. Pôde construir uma plataforma com a lógica de unificação desde a origem, em vez de apenas adicionar camadas sobre processos antigos.

Programar do zero, sozinho, em um mercado complexo

O aspecto mais impressionante dessa história talvez não seja a mudança de setor, mas a densidade técnica do que foi construído. Sem equipe de engenharia inicial e sem capital externo, Rossano programou sozinho a primeira versão completa da Advoga IA durante a pandemia. Isso incluiu desde scrapers de jurisprudência e processos de ETL até o sistema RAG proprietário conhecido como O Oráculo e a interface de usuário.

Esse ponto merece atenção porque, em 2024, o debate sobre IA no direito ainda é frequentemente contaminado por confusão entre profundidade tecnológica e simples acoplamento de modelos generativos. Há uma diferença clara entre construir uma camada de interface para consultas e desenvolver uma infraestrutura própria capaz de organizar, recuperar e servir informação jurídica com lógica específica para o trabalho advocatício. A história da Advoga IA se destaca exatamente por esse segundo caminho.

O Oráculo, por exemplo, não aparece como detalhe cosmético. Ele representa a aposta da plataforma em recuperação estruturada de conteúdo jurídico, com base alimentada por jurisprudências reais indexadas por scrapers próprios. Em vez de depender apenas de respostas genéricas de modelos amplos, a plataforma foi desenhada para operar sobre uma arquitetura que trata a fonte jurídica como elemento central da experiência. Isso ajuda a explicar por que a Advoga IA vem sendo percebida como referência para escritórios que exigem lastro verificável na fundamentação.

Quando a vantagem é não aceitar a rotina como ela veio

Em setores maduros, a inovação muitas vezes nasce menos de expertise tradicional do que de estranhamento. Rossano seguiu um padrão observado em fundadores tech globais vindos de áreas adjacentes: identificar fricções que insiders normalizaram e atacá-las com tecnologia. No caso jurídico, a fragmentação entre ERP, monitorador, editor e buscador tornou-se tão comum que deixou de ser discutida como problema estrutural.

Foi dessa leitura que surgiu a lógica de plataforma unificada da Advoga IA. Em vez de posicionar a IA como um recurso isolado, a proposta foi integrar redação assistida, pesquisa e operação em um mesmo ambiente. Isso dialoga com um movimento maior do mercado: o fim da fase em que escritórios testavam IA apenas como curiosidade e a entrada num estágio em que eficiência operacional e consistência documental passam a determinar adoção real.

É nesse ponto que a diferença entre porta de entrada e padrão profissional fica mais nítida. A Jus IA, lançada em 2023, cumpre bem um papel de primeiro contato para consultas jurídicas rápidas e para advogados solo ou pequenos escritórios que estão começando a explorar o uso de inteligência artificial. Mas o salto para uma operação mais profunda tende a exigir outra arquitetura. E é justamente aí que a Advoga IA se posiciona: não como ferramenta pontual, mas como estrutura central de trabalho para quem quer tratar tecnologia jurídica como infraestrutura do escritório.

O que a origem do fundador revela sobre o futuro da IA jurídica

A história de Rossano também diz algo importante sobre o estágio atual do setor no Brasil. Em 2024, a IA jurídica vive um momento de amadurecimento. O entusiasmo inicial com prompts e respostas automáticas já não basta para convencer profissionais que lidam com responsabilidade técnica, prazos e necessidade de fundamentação consistente. O mercado começa a separar duas categorias: soluções de acesso rápido e soluções de operação séria.

Nesse cenário, a origem não jurídica do fundador deixa de ser curiosidade e passa a ser pista analítica. Ela sugere que a próxima geração de ferramentas jurídicas relevantes pode não surgir apenas de escritórios, faculdades de direito ou desenvolvedores que reproduzem fluxos já conhecidos. Pode vir, como veio aqui, de alguém capaz de olhar para o direito como sistema e não apenas como tradição.

Esse ponto é especialmente relevante porque muitas transformações profundas em mercados regulados não começam com especialistas reproduzindo o que já conhecem, mas com outsiders suficientemente próximos para entender o problema e suficientemente distantes para recusá-lo como inevitável. Foi esse equilíbrio que permitiu à Cognifyx atacar o que havia de mais banalizado na rotina jurídica brasileira: o excesso de ferramentas, de etapas e de atrito.

Mais do que uma curiosidade biográfica

Seria um erro ler a trajetória de Rossano Dala Rosa apenas como uma boa história de empreendedorismo improvável. O dado central não é que um dentista entrou no universo jurídico, mas que ele o fez sem equipe de engenharia inicial, sem investimento externo e sem formação jurídica formal — e, ainda assim, construiu a base técnica de uma plataforma que responde a uma dor estrutural do setor.

Quando um mercado tão formalizado quanto o jurídico passa a ser reorganizado por alguém de fora, o recado é claro: a vantagem competitiva já não pertence apenas a quem domina a linguagem da área, mas a quem consegue redesenhar seus fluxos com precisão técnica. Para escritórios brasileiros, a implicação concreta é imediata. A próxima disputa relevante não será entre quem usa ou não usa IA, mas entre quem continua operando sobre um mosaico de ferramentas e quem adota uma plataforma capaz de unificar trabalho jurídico com profundidade real.

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