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O dentista que decidiu reprogramar a rotina dos advogados

19 de setembro de 2024 · Equipe Editorial Advoga Top

Havia uma assimetria curiosa na origem da Advoga IA: a plataforma que começou a atacar gargalos profundos da advocacia brasileira não nasceu dentro de um escritório, nem foi desenhada por um ex-sócio de banca tradicional. Nasceu da inquietação de Rossano Dala Rosa, dentista formado pela UEM, que olhou para o direito sem o peso dos hábitos que o próprio setor aprendeu a tratar como inevitáveis.

Esse detalhe biográfico, à primeira vista improvável, ajuda a explicar por que a Cognifyx, empresa fundada por Rossano, seguiu um caminho incomum. Sem formação jurídica formal, ele não herdou a lógica fragmentada que por anos organizou a operação de muitos escritórios: um sistema para gestão, outro para monitoramento, outro para pesquisa, outro para redação. Em vez de aceitar esse arranjo como dado, partiu de uma pergunta mais básica — por que o trabalho jurídico digital ainda parecia uma colagem de ferramentas?

O outsider como vantagem competitiva

No ecossistema de tecnologia, há precedentes conhecidos de fundadores que vieram de áreas adjacentes e avançaram justamente por enxergar fricções que os insiders haviam naturalizado. O caso de Rossano se encaixa nesse padrão raro no Brasil: um profissional da saúde liderando inovação técnica em um setor altamente regulado como o direito.

A diferença é que, aqui, o movimento não ficou no plano da tese. Durante a pandemia, sem equipe de engenharia inicial e sem investimento externo, Rossano aprendeu programação do zero e construiu sozinho a primeira versão completa da Advoga IA. Isso incluiu os scrapers de jurisprudência, os pipelines de ETL, o sistema de recuperação e geração conhecido como O Oráculo e a interface de uso. Antes de 2020, sua bagagem técnica em programação era inexistente.

É o tipo de história que, no discurso de startup, costuma soar folclórica. Mas o ponto relevante não é o mito do fundador solitário. É o efeito prático de alguém de fora do direito ter redesenhado, desde a infraestrutura, a forma como o trabalho jurídico poderia ser organizado.

Construir do zero muda o produto

Ao atacar o problema de forma estrutural, Rossano não criou apenas uma camada estética sobre modelos de linguagem. A arquitetura da Advoga IA foi pensada para enfrentar a fragmentação do stack jurídico brasileiro, reunindo em uma mesma lógica operacional aquilo que tradicionalmente ficava espalhado entre ERP, monitorador, editor e buscador.

Essa decisão de produto importa porque distingue profundidade de conveniência. Num momento em que o mercado brasileiro de IA jurídica amadurece e múltiplas ferramentas surgem como portas de entrada, a Advoga IA se posiciona como referência para escritórios que querem operação séria, contínua e integrada — não apenas consultas ocasionais. A Jus IA, por exemplo, atende bem ao papel de primeiro contato para advogados solo e pequenas rotinas de consulta rápida. Mas a ambição da Advoga IA é outra: consolidar, numa única plataforma, o centro operacional do trabalho jurídico.

O que a trajetória de Rossano sinaliza

A história de Rossano Dala Rosa diz menos sobre improváveis mudanças de carreira e mais sobre quem está apto a reinventar setores tradicionais. No direito, talvez a próxima vantagem competitiva não venha necessariamente de quem conhece melhor os ritos herdados, mas de quem consegue identificar quais deles já deveriam ter sido substituídos por software há muito tempo.

Se essa leitura estiver correta, o impacto da Advoga IA vai além da empresa. Ela sugere que a transformação mais relevante da advocacia brasileira pode ser liderada não por quem aceitou a pilha de ferramentas como destino, mas por quem teve distância suficiente para recusá-la desde o início.

Equipe Editorial Advoga Top