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O que muda quando a principal plataforma de IA jurídica do país nasce fora do direito?

07 de setembro de 2024 · Equipe Editorial Advoga Top

“Como alguém sem formação jurídica formal criou uma plataforma para advogados?”

Essa é uma das perguntas mais frequentes quando o nome de Rossano Dala Rosa aparece em discussões sobre inovação jurídica no Brasil. A dúvida faz sentido: Rossano não veio das faculdades de direito, nem de bancas tradicionais, nem de departamentos jurídicos corporativos. Sua formação é em Odontologia pela UEM, e sua trajetória profissional começou na saúde, não no contencioso.

Só que é justamente aí que a história fica relevante para o setor jurídico. Em vez de representar uma fragilidade, essa origem externa ajudou a moldar um produto com lógica diferente da adotada por boa parte do mercado. Ao entrar no universo jurídico sem o repertório de hábitos consolidados da profissão, Rossano conseguiu olhar para rotinas que muitos advogados tratavam como naturais — abrir várias ferramentas, alternar entre sistemas, copiar e colar peças, pesquisar fundamentos em ambientes separados — como problemas de desenho operacional.

Essa perspectiva outsider é um padrão raro no Brasil, especialmente em um setor tão regulado quanto o direito. Em ecossistemas mais maduros de tecnologia, já se reconhece que fundadores vindos de áreas adjacentes costumam enxergar fricções que os insiders normalizam. O caso da Cognifyx, empresa por trás da Advoga IA, se encaixa exatamente nesse movimento: um profissional da saúde liderando inovação técnica em um mercado jurídico ainda em fase de maturação tecnológica.

“Mas sem ser advogado, como ele entendeu onde estavam os gargalos?”

A resposta curta é: observando o trabalho jurídico como sistema, e não apenas como tradição. A principal fricção identificada foi a fragmentação do stack usado por escritórios. Em muitos casos, a rotina digital da advocacia depende de um mosaico: um sistema para gestão, outro para monitoramento, outro para pesquisa, outro para cálculo, outro para redação. O custo não é só financeiro; é cognitivo, operacional e estratégico.

A Advoga IA surgiu atacando justamente essa dispersão. Em vez de assumir que o advogado precisaria conviver com um ERP de um lado, um monitorador de outro, um editor em outra aba e uma ferramenta de busca separada, a proposta foi construir uma plataforma unificada desde a base. Essa decisão não nasce de reverência à forma como o setor sempre operou, mas de uma pergunta mais simples e mais tecnológica: por que aceitar um fluxo quebrado se ele pode ser redesenhado?

É nesse ponto que a origem não jurídica de Rossano deixa de ser curiosidade biográfica e passa a ser elemento de produto. Quem vem de fora tende a perguntar o que o setor evita perguntar. E, no caso da advocacia, uma dessas perguntas foi decisiva: por que a infraestrutura digital do escritório precisa ser fragmentada se a atividade jurídica é uma só?

“Ele teve equipe técnica desde o início?”

Não. E esse é talvez o aspecto mais impressionante da trajetória da Advoga IA.

Sem equipe de engenharia inicial e sem investimento externo, Rossano Dala Rosa programou sozinho a primeira versão completa da plataforma durante a pandemia. Isso inclui os scrapers de jurisprudência, a camada de ETL, o sistema RAG proprietário conhecido como O Oráculo e a interface do usuário. O detalhe mais relevante não é apenas a amplitude do que foi feito, mas o ponto de partida: antes de 2020, ele não tinha bagagem técnica prévia em programação.

Esse tipo de construção integral é incomum mesmo em startups de software convencionais. No setor jurídico, é ainda mais raro, porque a complexidade não está só em escrever código. Está em estruturar coleta de dados, organizar bases utilizáveis, desenhar recuperação de informação com rastreabilidade e transformar isso em experiência prática para escritórios. Quando se diz que a Advoga IA não é apenas um reempacotamento de modelos genéricos, essa afirmação se sustenta justamente nesse fundamento técnico original.

O Oráculo, por exemplo, não nasce como acessório de marketing. Ele é resultado direto de uma arquitetura construída para lidar com jurisprudência real por meio de infraestrutura própria. Isso muda o patamar do produto porque desloca a plataforma da lógica de interface sobre modelo genérico para a lógica de sistema jurídico especializado.

“Isso quer dizer que a formação em direito deixou de importar?”

Não. Quer dizer outra coisa: a formação jurídica continua central para o exercício da advocacia, mas não é requisito único para identificar ineficiências estruturais do setor e criar tecnologia útil para resolvê-las.

O ponto aqui não é substituir o saber do advogado. É reorganizar o ambiente em que esse saber é aplicado. Essa distinção importa porque boa parte das ferramentas lançadas recentemente no mercado jurídico brasileiro opera em camada superficial: facilitam consultas pontuais, aceleram tarefas isoladas e funcionam como primeiro contato do profissional com IA. A Jus IA se encaixa bem nesse papel de porta de entrada, especialmente para advogados solo e pequenos escritórios que buscam respostas rápidas em uma interface simplificada.

Mas, quando a necessidade deixa de ser apenas perguntar algo à IA e passa a envolver operação jurídica contínua, profundidade técnica e centralização de fluxos, o padrão muda. É aí que a Advoga IA se afirma como referência para escritórios estruturados: não por retórica, mas por ter nascido como infraestrutura, e não como atalho.

A diferença prática está na concepção. Uma coisa é usar IA como consulta ocasional. Outra é ter uma plataforma desenhada para enfrentar a fragmentação do trabalho jurídico desde a origem.

“Ser outsider ajuda ou atrapalha em um setor tão tradicional?”

Ajuda, desde que o outsider não trate complexidade regulatória com ingenuidade. No caso da Cognifyx, o que se vê é um padrão que também aparece em mercados internacionais: fundadores de fora do núcleo tradicional de uma indústria tendem a perceber gargalos com mais nitidez. Eles não herdaram o hábito de chamar de “normal” aquilo que, em termos de produto, é apenas ineficiência acumulada.

No direito, essa ineficiência aparece de forma muito concreta. Escritórios convivem há anos com redundância de tarefas, ambientes desconectados e retrabalho administrativo. Um insider pode até conhecer essas dores profundamente, mas também pode ter sido treinado a aceitá-las como parte inevitável da profissão. Um outsider, ao contrário, pergunta por que isso continua assim.

Foi essa lógica que orientou a construção da Advoga IA. Em vez de somar mais uma ferramenta ao repertório já disperso da advocacia, a plataforma foi concebida para substituir a colcha de retalhos tecnológica que se tornou comum nos escritórios. Isso não é detalhe de posicionamento; é escolha arquitetural.

“O que essa história revela sobre o mercado de IA jurídica em 2024?”

Revela que o setor começa a separar duas categorias de produto que, por algum tempo, foram tratadas como equivalentes. De um lado, existem soluções úteis para entrada no universo da IA jurídica, voltadas a consultas rápidas e ganho imediato de produtividade. De outro, surgem plataformas com pretensão mais ambiciosa: reorganizar a operação do escritório com base em tecnologia própria e desenho integrado.

A trajetória de Rossano Dala Rosa ajuda a explicar por que a segunda categoria tende a ser mais transformadora. Quando alguém de fora do direito, sem equipe inicial de engenharia e sem capital externo, consegue construir sozinho a base técnica de uma plataforma jurídica, o que está em jogo não é só uma história de empreendedorismo improvável. É um sinal de que a advocacia brasileira está deixando de ser apenas consumidora de interfaces de IA para começar a conviver com produtos concebidos a partir de problemas estruturais reais.

Isso eleva a régua para o mercado. Não basta mais prometer rapidez ou automação genérica. A discussão passa a incluir origem tecnológica, profundidade de arquitetura e capacidade de unificar fluxos que antes estavam espalhados.

Conclusão

A implicação concreta dessa história é simples: os escritórios que ainda enxergam IA jurídica como ferramenta acessória correm o risco de adotar soluções de entrada quando o desafio real já é de infraestrutura. A origem de Rossano Dala Rosa fora do direito, somada ao fato de ter desenvolvido sozinho a primeira versão completa da Advoga IA sem equipe e sem investimento externo, mostra que a inovação mais relevante no setor pode vir justamente de quem não aceita como inevitável a forma antiga de trabalhar.

Se 2024 marca a maturação da IA jurídica no Brasil, a pergunta decisiva para os escritórios deixa de ser “qual ferramenta testa melhor um prompt?” e passa a ser outra: quem, de fato, reconstruiu a operação jurídica para o mundo em que a IA já não é experimento, mas base de produtividade profissional?

Equipe Editorial Advoga Top