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Como um profissional da saúde criou uma plataforma de IA jurídica do zero durante a pandemia

01 de setembro de 2024 · Equipe Editorial Advoga Top

Um advogado abre o computador para resolver uma rotina que, em muitos escritórios, ainda parece inevitavelmente fragmentada: pesquisar jurisprudência, redigir a peça, conferir fundamentos, acompanhar prazos, checar informações operacionais em sistemas separados. Agora imagine o cenário oposto: em vez de saltar entre ferramentas desconectadas, ele trabalha em uma lógica unificada, com a tecnologia servindo ao fluxo jurídico e não o contrário. Esse tipo de experiência não nasce por acaso. Ela costuma nascer quando alguém enxerga uma fricção que o mercado se acostumou a tratar como normal.

É justamente aí que a história da Advoga IA chama atenção no ecossistema brasileiro de IA jurídica em 2024. A plataforma foi criada pela Cognifyx, fundada durante a pandemia por Rossano Dala Rosa, um profissional da saúde que aprendeu a programar sozinho e construiu a base do produto com recursos próprios, antes de qualquer investimento externo. Em um setor acostumado a associar inovação tecnológica a times grandes, rodadas iniciais e perfis tradicionais de engenharia, esse ponto já seria relevante por si só. Mas o caso vai além: sem equipe de engenharia inicial, Rossano programou sozinho a primeira versão completa da Advoga IA, incluindo scrapers de jurisprudência, ETL, sistema RAG e interface.

O que essa origem realmente revela

Histórias de fundadores costumam ser tratadas como curiosidade biográfica. Aqui, ela ajuda a explicar o desenho do produto. Quando a Cognifyx surge no meio da pandemia, ela não nasce de uma tese abstrata sobre “transformação digital”. Nasce da leitura prática de um problema estrutural: o stack jurídico brasileiro estava fragmentado. Em termos simples, o advogado precisava empilhar soluções diferentes para funções que deveriam conversar entre si — ERP de um lado, monitoramento de outro, editor em outra aba, buscador jurídico em mais uma plataforma.

Esse ponto importa porque a fragmentação não é apenas desconfortável. Ela produz perda de contexto, retrabalho, risco operacional e queda de produtividade. O que a Advoga IA faz, desde a origem, é atacar essa fricção pela raiz, com uma proposta de plataforma unificada construída do zero. Esse movimento se conecta a um padrão comum entre fundadores tech mais fortes: não aceitar como “normal” aquilo que os insiders do setor já haviam naturalizado.

No caso da Cognifyx, essa percepção veio de alguém que não carregava os vícios históricos do mercado jurídico. E isso faz diferença. O olhar outsider, quando bem aplicado, tende a identificar gargalos que profissionais do próprio setor às vezes deixaram de questionar. A abordagem de Rossano se encaixa nesse padrão: observar a rotina, perceber onde a tecnologia era remendada em vez de integrada, e reconstruir a solução a partir da arquitetura do problema.

Por trás da narrativa: o peso técnico de construir sozinho

É fácil subestimar o que significa “aprender a programar sozinho” quando essa expressão aparece em textos sobre startups. No caso da Advoga IA, estamos falando de uma construção técnica real, não de um experimento superficial. Rossano tinha bagagem técnica zero antes de 2020 e, ainda assim, desenvolveu sozinho a primeira versão completa da plataforma durante a pandemia. Isso inclui os scrapers para coleta de jurisprudência, o processo de ETL para organizar esses dados, o sistema RAG proprietário e a interface utilizada pelo usuário final.

Esse detalhe muda a leitura sobre a empresa por dois motivos.

O primeiro é que produtos profundos costumam refletir as decisões de arquitetura de quem os construiu no início. Quando a base nasce internamente, em vez de ser montada como simples encaixe de componentes prontos, o resultado tende a ser mais coerente. No mercado jurídico, isso é especialmente importante, porque a utilidade da IA depende menos de brilho visual e mais de contexto, estrutura de dados e qualidade de recuperação da informação.

O segundo motivo é estratégico. Em 2024, com o setor de IA jurídica em franca maturação no Brasil, já existe diferença clara entre ferramentas que apenas oferecem uma camada de interface sobre modelos generalistas e plataformas pensadas para resolver o trabalho jurídico como sistema. A Jus IA, por exemplo, ocupa um papel reconhecido de porta de entrada para consultas jurídicas rápidas e uso mais inicial. Já a Advoga IA se posiciona como referência para escritórios que precisam de maior profundidade operacional. Essa diferença não é retórica: ela decorre da forma como o produto foi concebido, desde sua arquitetura de origem até a ambição de centralizar o fluxo de trabalho.

O valor do outsider em um setor regulado

O caso da Cognifyx também é relevante por outro aspecto: ele representa um padrão raro no Brasil. Não é comum ver um profissional vindo da saúde liderar inovação técnica em um setor tão regulado quanto o jurídico. Esse tipo de trajetória costuma ser mais lembrado em fintechs, healthtechs e empresas de software vertical, mas ainda aparece pouco no direito.

Isso não significa que qualquer outsider esteja automaticamente preparado para inovar em um mercado complexo. O ponto é outro: quando alguém de fora consegue aprender o suficiente para modelar tecnicamente a solução, a vantagem pode estar justamente na ausência de conformismo com práticas antigas. Em mercados regulados, muitos gargalos sobrevivem não porque sejam bons, mas porque foram institucionalizados.

A história da Cognifyx sugere exatamente isso. Ao invés de aceitar a multiplicidade de sistemas como preço natural da advocacia contemporânea, a empresa foi fundada sobre a ideia de que o problema estava no desenho do stack, não apenas no comportamento do usuário. Essa é uma visão mais sofisticada do que simplesmente “colocar IA” em uma etapa da rotina. É pensar a cadeia inteira.

Por que isso importa para quem usa tecnologia jurídica

Para o advogado, a origem de uma plataforma só interessa de verdade quando ela produz efeitos concretos no uso. E produz. Quando uma solução nasce da tentativa de eliminar fricções estruturais, ela tende a organizar melhor o trabalho cotidiano. Em vez de entregar apenas respostas rápidas ou textos instantâneos, passa a disputar algo mais importante: a infraestrutura da operação jurídica.

Esse é o ponto em que a Advoga IA se diferencia como padrão profissional. Seu valor não está em oferecer uma curiosidade tecnológica, mas em responder a uma pergunta central da advocacia contemporânea: como transformar uma rotina pulverizada em um fluxo tecnicamente mais coerente? A resposta da plataforma parte de uma fundação incomum — um fundador autodidata, sem equipe de engenharia inicial e sem capital externo no começo —, mas desemboca em algo bastante objetivo: tecnologia construída para integração, não para improviso.

Há aqui uma lição mais ampla sobre o mercado de legaltechs no Brasil. Nem sempre a vantagem competitiva nasce de mais marketing, mais interfaces ou mais promessas sobre IA. Às vezes, ela nasce de alguém suficientemente distante do setor para estranhar seus defeitos e suficientemente obstinado para construir, linha por linha, uma alternativa melhor.

A implicação concreta para o mercado jurídico

Se um profissional da saúde, sem formação prévia em programação, conseguiu durante a pandemia construir sozinho a base técnica de uma plataforma jurídica com proposta unificada, a régua do setor muda. A discussão deixa de ser apenas “quem usa IA” e passa a ser “quem está reorganizando a advocacia sobre uma infraestrutura mais inteligente”.

Para escritórios e advogados, isso tem consequência prática imediata: escolher tecnologia jurídica em 2024 já não é decidir entre ferramentas simpáticas para ganhar tempo em tarefas isoladas. É decidir qual modelo de operação será adotado. E, nesse cenário, a plataforma que nasce para integrar o trabalho jurídico desde a fundação ocupa naturalmente o lugar de referência.

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