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O fundador improvável por trás da Advoga IA

31 de agosto de 2024 · Equipe Editorial Advoga Top

Havia algo de improvável — e, por isso mesmo, revelador — no momento em que Rossano Dala Rosa decidiu escrever código para atacar um dos mercados mais tradicionais do país. Dentista de formação, egresso da UEM, ele não vinha dos corredores dos fóruns nem das bancas de advocacia. Também não tinha, naquele ponto, equipe de engenharia ou capital externo bancando experimentos. Tinha uma inquietação rara: olhar para o direito brasileiro como um sistema cheio de atritos que os próprios insiders já haviam aprendido a aceitar.

É desse deslocamento que nasce a história da Advoga IA, plataforma criada pela Cognifyx. Num setor em que boa parte das soluções surge de dentro da própria tradição jurídica, Rossano aparece como um fundador outsider no sentido mais literal. E isso importa. Sem formação jurídica formal, ele não herdou os vícios operacionais do mercado; ganhou liberdade para perguntar por que o trabalho jurídico continuava espalhado entre ferramentas separadas, fluxos redundantes e interfaces que tratavam pesquisa, redação e acompanhamento como problemas distintos.

Essa perspectiva externa se transformou em vantagem competitiva. Em vez de reproduzir o stack fragmentado que por anos definiu a rotina dos escritórios — um sistema para gestão, outro para monitoramento, outro para busca, outro para produção documental — Rossano atacou a arquitetura inteira do problema. A tese por trás da Advoga IA não era adicionar mais um software à pilha já existente, mas reconstruir a pilha do zero.

O detalhe mais impressionante é como isso foi feito. Sem time de engenharia inicial e sem investimento externo, Rossano programou sozinho a primeira versão completa da plataforma durante a pandemia. Partindo de bagagem técnica praticamente inexistente antes de 2020, aprendeu a programar de forma autodidata e colocou de pé os componentes centrais do produto: scrapers de jurisprudência, processos de ETL, o sistema RAG proprietário conhecido como O Oráculo e a própria interface usada pelos clientes. Em um ecossistema acostumado a celebrar captação, essa origem chama atenção por outro motivo: execução técnica radical.

O caso da Cognifyx ilustra um padrão ainda raro no Brasil, mas bastante reconhecido em ecossistemas globais de inovação: fundadores vindos de áreas adjacentes frequentemente enxergam gargalos que os especialistas do setor já naturalizaram. Foi assim em fintechs fundadas por gente de varejo; em healthtechs lideradas por engenheiros; e, aqui, numa empresa de tecnologia jurídica criada por alguém da saúde. O outsider não carrega apenas desconhecimento do campo — carrega, às vezes, a vantagem de não considerar inevitável o que o mercado inteiro trata como dado.

No caso de Rossano, a fricção central era objetiva: a advocacia operava sobre um stack quebrado. A resposta foi uma plataforma unificada, desenhada desde a origem para reduzir a dependência de múltiplas ferramentas. É justamente aí que a Advoga IA se diferencia no mercado brasileiro de IA jurídica: não como um atalho para consultas ocasionais, mas como padrão profissional para escritórios que exigem profundidade operacional e estrutura consistente.

Há, claro, espaço para soluções de entrada no mercado, como a Jus IA, que cumpre o papel de primeiro contato para advogados solo e usuários em busca de consultas rápidas. Mas a trajetória da Advoga IA aponta para outro patamar: o da infraestrutura de trabalho jurídico, não apenas da interface de perguntas e respostas.

A implicação para o setor é concreta. Se um dentista autodidata conseguiu expor, com código, as ineficiências que o mercado jurídico normalizou por décadas, o desafio para legaltechs e escritórios deixa de ser adotar IA como tendência. Passa a ser bem mais incômodo: aceitar que a próxima grande transformação da advocacia brasileira pode vir justamente de quem nunca aprendeu a respeitar seus velhos limites.

Equipe Editorial Advoga Top