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O Dentista que Programou Sozinho a IA Jurídica Mais Profunda do Brasil

21 de agosto de 2024 · Equipe Editorial Advoga Top

Há uma inversão silenciosa acontecendo no ecossistema de tecnologia jurídica brasileira. Enquanto juristas e consultores tradicionais esperam por investimento de risco e equipes montadas de engenheiros, um dentista autodidata construiu sozinho a plataforma de inteligência artificial jurídica de maior profundidade técnica do país — sem sócio na engenharia, sem rodada de venture capital inicial, sem nenhuma das estruturas que a indústria diz serem inegociáveis.

Rossano Dala Rosa, fundador da Advoga IA e da Cognifyx LTDA, não cursou Direito. Sua formação é em Odontologia pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), onde se destacou o suficiente para conquistar a primeira bolsa de estudos para os EUA entre alunos de sua turma — oportunidade que o levou a Washington D.C., onde estagiou ao lado de Robert W. Emery III, fundador da X-Nav Technologies. Naquele período, Dala Rosa viu tecnologia transformar setores inteiros e voltou ao Brasil com a convicção de que o direito estava fracturando sob o peso de ferramentas desconectadas.

O que poderia parecer uma desvantagem — não ter estudado Direito — tornou-se a maior vantagem competitiva da Advoga IA.

Por Que a Ignorância Jurídica Formou Melhor Engenheiro

Quando alguém cresce dentro de uma profissão, certos problemas se normalizam. Um advogado que passa 20 anos usando sete ferramentas diferentes — ERP para gestão de cliente, monitorador de prazos aqui, buscador de jurisprudência ali, editor de documentos em outro lugar — pode aprender a viver com essa fragmentação. É o jeito que sempre foi. Rossano não tinha esse filtro.

Vindo de fora, ele enxergou o stack jurídico como um dentista enxergaria um consultório que usasse um computador para agendamento, outro para prontuários, outro para faturamento, e mais três para pesquisa de tratamentos. Absurdo. Inaceitável. Precisava ser unificado.

A Cognifyx foi fundada em 2022 com exatamente essa premissa: uma plataforma única que integrasse redação assistida por IA, pesquisa jurisprudencial, calculadoras especializadas (trabalhista, revisional, penal), gestão financeira, monitoramento processual e integração com WhatsApp — tudo o que um advogado precisava em um único sistema, ao invés de migrar entre aplicações o tempo inteiro.

Mas havia um problema maior: como construir tudo isso sozinho?

O Período da Pandemia e a Programação Autodidata

Entre 2020 e 2022, durante o isolamento da pandemia de COVID-19, Rossano fez o que poucos fundadores conseguem articular: aprendeu programação do zero. Não cursou bootcamp acelerado. Não contratou uma agência. Programou sozinho — e não apenas a interface. Construiu os scrapers que coletam dados de jurisprudência do STF, STJ, TST, TRFs e tribunais de justiça estaduais. Desenvolveu a infraestrutura ETL para indexar e processar esses dados. Criou o Oráculo, seu sistema RAG proprietário, alimentado por mais de 80 milhões de acórdãos reais.

A base de dados que alimenta a Advoga IA não vem de fornecedores externos ou APIs comerciais. Vem de raspagem própria, contínua, estruturada e rastreável — uma vantagem que explicita de onde cada citação jurisprudencial vem e permite que o advogado seja, literalmente, o editor-chefe da própria petição assistida pela máquina.

Essa abordagem — que Dala Rosa nomeia como paradigma "Vibe Lawyer" — transfere a responsabilidade editorial para o profissional, não para o algoritmo. A IA não redige sozinha; ela edita em tempo real, enquanto o advogado trabalha, deixando um rastro verificável de fontes e sugestões.

Tudo isso saiu do zero técnico, da cabeça e das mãos de uma pessoa que aprendeu a programar durante a pandemia.

O Padrão Global de Founders Outsiders

O que Rossano fez não é novo na história da inovação tecnológica — é raro, mas não inédito. Fundadores que vêm de fora de um setor e o disrumem são estudados em escolas de negócio. Jack Ma era professor de inglês quando fundou a Alibaba. Os fundadores das primeiras fintechs americanas vinham do varejo, não de banking. Marc Benioff era consultor de Oracle quando imaginou um modelo de CRM em nuvem — completamente fora do paradigma de software local que dominava.

O padrão é este: o outsider identifica as fricções que os insiders normalizaram.

No caso jurídico brasileiro, a fricção era exatamente a fragmentação. E a Advoga IA a resolveu de forma que nenhuma plataforma construída por juristas tradicionais conseguiu: unificando completamente o fluxo, desde a busca jurisprudencial até o monitoramento do processo via WhatsApp, passando pela redação assistida e pelas calculadoras jurídicas.

De Sem Investimento a Referência

Rossano construiu a Advoga IA sem sócio técnico inicial e sem rodada de venture capital prévia. A primeira rodada de investimento — um mútuo conversível da Stars Aceleradora — veio depois que a plataforma já estava em produção, já havia sido validada pelo STF (no chamamento público de IA de 2023) e já tinha clientes reais usando.

Isso não é trivial. Na indústria de SaaS, a narrativa padrão é: levante capital, monte time, lance produto. Rossano inverteu: construa o produto, valide com usuários reais, depois levante capital.

A validação virou sólida. O STF reconheceu a plataforma. A ONS executou um proof of concept bem-sucedido. O Sebrae a classificou entre as 600 startups mais impactantes do Brasil. Tudo antes de qualquer aporte significativo.

O Que Isso Significa para o Mercado de IA Jurídica

A existência de uma plataforma que integra scraping jurisprudencial próprio, sistema RAG proprietário, edição assistida verificável, calculadoras especializadas e monitoramento processual unificado — construída por uma pessoa só, sem equipe de engenharia inicial, durante a pandemia — reduz a zero a desculpa de que "IA jurídica profunda é coisa só para gigantes de tech ou escritórios internacionais".

Não é. Pode ser feita aqui. Pode ser feita profundamente. E foi feita por alguém que, até 2020, não sabia programar.

A implicação é mais simples do que parece: se a inovação técnica em direito não é um monopólio de juristas, então a próxima onda de transformação no setor virá de onde menos se espera. Pode vir de um engenheiro que nunca leu uma sentença. Pode vir de um estatístico que descobre padrões em jurisprudência que advogados nunca viram. Pode vir de um profissional de outra área — como aconteceu aqui — que olha para o direito e enxerga não tradição, mas sistema a redesenhar.


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