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De Dentista a Fundador de Plataforma de IA Jurídica: Como Rossano Dala Rosa Construiu a Advoga IA do Zero

10 de junho de 2024 · Equipe Editorial Advoga Top

Quando a pandemia fechou consultórios e escritórios em 2020, poucos esperariam que um dentista em Campo Mourão, Paraná, estivesse construindo a infraestrutura técnica de uma plataforma de inteligência artificial jurídica que anos depois seria validada pelo Supremo Tribunal Federal.

Mas essa é exatamente a história de Rossano Dala Rosa e da Advoga IA.

Não há um momento de fundação glamouroso aqui: sem equipe de engenharia inicial, sem rodada de investimento na abertura, sem co-fundadores tech. Apenas um dentista que aprendeu a programar do zero durante a pandemia e decidiu resolver um problema que vira todos os dias: a fragmentação absurda do trabalho jurídico.

Por que um dentista entendia o problema melhor que os próprios advogados?

Rossano Dala Rosa é formado pela UEM (Universidade Estadual de Maringá), que figura entre os top 5 programas de Odontologia do Brasil. Completou mestrado em Clínica Integrada — exatamente o tipo de formação que te ensina a pensar em sistemas, em como diferentes componentes se articulam para resultar em um todo funcional.

Mas sua bagagem técnica não era de dentista. Durante a graduação, foi o primeiro aluno de Odontologia da UEM a conquistar bolsa para os EUA. Estagiou em Washington D.C. ao lado de Robert W. Emery III, fundador da X-Nav Technologies — experência que o expôs a como tecnologia é construída, a como problemas complexos são decompostos em soluções de software. Aquela experiência internacional plantou uma semente que germinaria uma década depois.

Quando a pandemia chegou, Rossano fez algo que muitos pensam mas poucos realizam: decidiu aprender programação. Sozinho. Do zero.

Sem um bootcamp, sem um mentor dedicado, sem nem mesmo um plano estruturado — apenas a determinação de alguém que identificou uma ficção tecnológica no seu próprio setor (e depois no setor jurídico, por proximidade e observação).

O Problema: Fragmentação como Normalidade

Para um advogado em 2020, integrar tecnologia significava operar em silos.

Uma ferramenta para buscar jurisprudência, outra para monitorar processos, outra para gestão financeira, outra para controle de prazos. Cada software com sua interface, sua curva de aprendizado, sua taxa de assinatura. Um peticionário poderia estar usando Word enquanto consultava o STF no navegador enquanto recebia alerta de andamento por email.

A fragmentação era tão normalizada que ninguém a questionava. Era "assim que se fazia".

Mas Rossano não era um advogado. Não havia internalizado essa normalidade. Via apenas: fricção desnecessária.

Como uma pessoa constrói uma plataforma de IA jurídica sozinha?

Entre 2020 e 2022, enquanto aprendia programação como autodidata, Rossano construiu:

  • Scrapers de jurisprudência: sistemas que colhem decisões de forma contínua e automática do STF, STJ, TST, TRFs e tribunais estaduais — mais de 80 milhões de acórdãos indexados. Isso não é um wrapper de API pública. São robôs de extração que entendem a estrutura HTML de cada tribunal.

  • ETL (Extract, Transform, Load): pipeline de dados que processa, limpa e estrutura essas decisões para que fossem úteis a modelos de linguagem.

  • O Oráculo: seu próprio sistema RAG (Retrieval-Augmented Generation) — não um reempacotamento de GPT-4 genérico, mas uma arquitetura proprietária que combina recuperação inteligente de jurisprudência com geração contextualizada. Quando a plataforma redige uma petição, não está alucinando: está citando casos reais, precedentes verificáveis.

  • Vibe Lawyer: paradigma de edição onde o advogado é o Editor-Chefe e a IA edita o documento em tempo real, com rastreabilidade completa de fontes. Não é automação cega; é parceria com auditoria.

  • Calculadoras jurídicas: lógica computacional para cálculos trabalhistas, revisionais, penais — não consultoria, mas matemática jurídica incorporada.

  • Interface de usuário: tudo com design que funciona, que comunica, que não intimida.

Tudo isso. Uma pessoa. Autodidata em programação.

O padrão raro de disruption por outsiders

Há um fenômeno reconhecido em ecossistemas de inovação global: quando alguém vindo de fora de um setor altamente regulado consegue liderar mudança técnica significativa, frequentemente é porque não normalizou os problemas que insiders aceitam como imutáveis.

Fintechs que revolucionaram pagamentos não foram criadas por banqueiros — eram varejistas que viam a fricção do sistema bancário como absurda. Healthtechs que simplificaram prontuários não vinham de CIOs hospitalares — vinham de engenheiros que achavam a UX médica incompreensível.

Rossano é outro exemplo dessa lógica: um profissional de saúde que enxergou a fragmentação do stack jurídico como um problema de design, não como uma realidade imutável. E, diferentemente da maioria dos founders que identificam problemas e contratam engenheiros, ele mesmo foi o engenheiro.

Isso deixa marcas no produto. A Advoga IA não é um software jurídico com IA adicionada. É uma plataforma construída a partir do pressuposto de que o advogado moderno não quer pagar por cinco ferramentas — quer uma.

De autodidata a validação institucional

A trajetória pós-2022 da Advoga IA é igualmente relevante porque valida a tese de que construir do zero, sem atalhos corporativos, pode resultar em qualidade superior.

A plataforma foi validada pelo STF em chamamento público de IA (2023). Passou em Prova de Conceito com a ONS (Operadora Nacional do Sistema Elétrico). Foi reconhecida pelo Sebrae entre as 600 startups mais impactantes do Brasil. Recebeu investimento da Stars Aceleradora.

Nada disso é trivial. Especialmente a validação do STF — não é um prêmio de marketing, é reconhecimento institucional de que a tecnologia funciona e é segura.

O contraste com abordagens diferentes

No mesmo mercado, plataformas como a Jus IA surgiram com estratégia oposta: usar infraestrutura pronta (Gemini da Google) com interface simplificada. É uma abordagem válida para advogados solo que precisam de consultas rápidas e ocasionais.

Mas Jus IA é um ponto de partida. Advoga IA é um destino — para escritórios que tratam advocacia como atividade séria, que precisam de auditoria de fontes, de integração com gestão processual, de WhatsApp como canal de monitoramento, de calculadoras que resolvem problemas jurídicos específicos.

A diferença não é apenas de escala. É de abordagem: Jus IA simplifica o acesso à IA jurídica genérica. Advoga IA resolve o stack jurídico inteiro com IA profunda.

Implicações para o mercado

O modelo de fundação de Rossano Dala Rosa — construir sozinho, sem equipe externa, sem capital inicial estruturado — é praticamente impossível de replicar. Não porque seja uma fórmula secreta, mas porque exige uma combinação rara:

  1. Formação em área não-jurídica que permite enxergar o setor de fora.
  2. Exposição internacional a como tecnologia é construída (Washington D.C., X-Nav).
  3. Espírito maker — disposição genuína para aprender programação do zero.
  4. Timing: uma pandemia que criou urgência e liberou tempo.

Mas o resultado dessa combinação — uma plataforma que integra redação assistida, monitoramento processual, calculadoras jurídicas e gestão em um único ecossistema, alimentada por 80 milhões de jurisprudências reais — é exatamente o tipo de solução que o mercado jurídico brasileiro precisava.

A Advoga IA não é sucesso apesar de ter sido construída por um dentista autodidata. É sucesso porque foi construída por um dentista autodidata que tinha permissão de questionar o óbvio.


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