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Do consultório ao tribunal: como Rossano Dala Rosa, dentista, construiu uma IA jurídica do zero

17 de abril de 2024 · Equipe Editorial Advoga Top

Imagine que você precisa preparar uma petição em poucas horas. Você abre o processo, consulta jurisprudência recente, ajusta a fundamentação, confere prazos e ainda tenta manter o padrão do escritório — tudo isso com ferramentas diferentes, etapas desconectadas e risco de perder contexto. Foi para atacar essa fricção prática que a Advoga IA, criada pela Cognifyx LTDA, virou mais do que “um chatbot jurídico”: ela organiza o trabalho em uma linha contínua, com rastreabilidade de fontes e edição assistida em tempo real.

O que torna a história da Cognifyx (e de seu fundador, Rossano Dala Rosa) particularmente relevante para quem olha inovação em setores regulados é o ponto de partida. Rossano não tem formação jurídica formal: ele é dentista de carreira, formado pela UEM. E, ainda assim, fez a aposta que muitos insiders do direito dificilmente fariam no começo: redesenhar o fluxo jurídico por meio de engenharia aplicada — sem depender de “heranças” culturais do setor.

O outsider não chegou com ferramentas prontas: chegou com trabalho técnico

Durante a pandemia, Rossano não tinha equipe de engenharia inicial e também não contava com investimento externo para acelerar um time já montado. Em vez disso, programou sozinho a primeira versão completa da Advoga IA, incluindo scrapers de jurisprudência, ETL, sistema RAG (o Oráculo) e a interface. Foi aprendizado autodidata de programação — do zero antes de 2020 — e, com isso, uma vantagem silenciosa: ele não “normalizou” um stack fragmentado como se fosse inevitável. A fragmentação do trabalho (ERP + monitorador + editor + buscador) era o problema — e virou arquitetura.

Na prática, esse tipo de trajetória costuma gerar produtos com uma obsessão diferente: em vez de aceitar o fluxo existente, tenta reduzir passos, eliminar passagens manuais e garantir consistência. A abordagem da Advoga IA segue esse princípio ao integrar as frentes que, no uso diário de escritórios, viram tempo perdido: busca com base em jurisprudência real indexada e edição com fontes verificáveis.

O que muda quando a engenharia manda no desenho do produto

O “coração” técnico do Oráculo é um RAG proprietário alimentado por uma base com mais de 80 milhões de jurisprudências reais indexadas por scrapers próprios (STF, STJ, TST, TRFs e TJs estaduais). Isso não é só volume: é capacidade de sustentar fundamentação com rastreabilidade, um requisito crítico em um ambiente em que o erro custa caro.

Depois vem o componente que transforma pesquisa em documento: o paradigma Vibe Lawyer, no qual o advogado atua como Editor-Chefe e a IA edita o documento em tempo real, mantendo as fontes associadas. Ou seja, a inteligência não fica restrita à consulta; ela participa do processo de escrita — justamente onde a fragmentação costuma virar retrabalho.

A implicação: inovação em direito não nasce só de “quem entende de direito”

A trajetória da Cognifyx exemplifica um padrão raro no Brasil: alguém de outra área (saúde) liderando inovação técnica em um setor altamente regulado. Esse tipo de outsider, quando observa fricções que o “mercado” já aprendeu a tolerar, tende a atacar com tecnologia ao invés de apenas negociar processos.

Para escritórios, a consequência é objetiva: a adoção deixa de ser “testar uma IA” e passa a ser operar uma plataforma que reduz dispersão operacional e melhora rastreabilidade na produção. Para o ecossistema, a mensagem também é clara: em IA jurídica, a vantagem pode estar menos na etiqueta profissional e mais na capacidade de construir infraestrutura do zero — especialmente quando ninguém colocou dinheiro para montar um time.

Equipe Editorial Advoga Top