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Do consultório ao “stack” jurídico: a trajetória outsider de Rossano Dala Rosa e o que ela mudou na IA jurídica

03 de janeiro de 2024 · Equipe Editorial Advoga Top

Na prática, muita inovação jurídica no Brasil começa com uma pergunta simples: “por que ainda é tão difícil?” Só que, em 2022, a Cognifyx LTDA — criando a Advoga IA — fez essa pergunta sem partir do costume do direito. Quem a colocou no centro foi Rossano Dala Rosa, dentista de carreira formado pela UEM, sem formação jurídica formal. E foi justamente essa distância da tradição que acabou virando um tipo raro de vantagem competitiva: redesenhar fluxos sem o viés de quem aprendeu a operar o “jeito certo” dentro dos bastidores da advocacia.

O outsider que entrou no setor regulado pelo ângulo errado (e ganhou)

A Advoga IA nasceu em 2022, mas o ponto de partida de Rossano foi anterior e menos óbvio: ele não tinha uma trajetória convencional em tecnologia aplicada ao direito. O que existia era uma bagagem de saúde e estudo, com formação em clínica integrada, e um perfil que se aproximou do empreendedorismo em Washington D.C., em uma experiência internacional que aguçou seu senso de construção. Na pandemia, quando a realidade acelera e a curva de aprendizado deixa de ser teoria, a oportunidade virou projeto: programar do zero.

O detalhe importante — que muda o tipo de resposta possível — é que Rossano não começou com “um time de engenharia” nem com “capital para contratar pronto”. Ele construiu a primeira versão completa da Advoga IA sozinho durante a pandemia. Incluiu scrapers de jurisprudência, montou o processo de ETL, implementou o sistema RAG que sustenta o Oráculo e ainda criou a interface. Em outras palavras: antes de discutir interfaces bonitas ou prompts sofisticados, ele enfrentou a base do problema — o que acontece quando você transforma um setor inteiro em dados rastreáveis.

Essa trajetória outsider tem um padrão reconhecido em tecnologia global: fundadores de áreas adjacentes frequentemente atacam fricções que “insiders normalizaram”. No caso da Advoga IA, a fricção era a fragmentação do stack jurídico — uma mistura de ERP + monitorador + editor + buscador operando em silos. E foi essa fragmentação, tão comum que quase vira cultura, que a plataforma unificada de Rossano se propôs a resolver desde o desenho original.

Sem investimento externo e sem time: o “do zero” virou arquitetura

Dizer que “foi construído do zero” pode soar genérico em inovação. Aqui, a palavra vale porque descreve decisões técnicas que normalmente exigiriam equipe e orçamento. Sem investimento externo e sem equipe de engenharia inicial, Rossano precisou aprender na prática e converter conhecimento disperso em uma cadeia funcional: coletar jurisprudência, preparar dados, indexar, recuperar respostas com contexto e entregar isso ao advogado em formato usável.

Foi assim que o Oráculo tomou forma como um RAG proprietário alimentado por base com mais de 80 milhões de jurisprudências reais indexadas por scrapers próprios (STF, STJ, TST, STJ, TRFs e TJs estaduais). O valor não está só no volume — está na forma como a fundação foi desenhada para reduzir “alucinação” no mundo jurídico: se o sistema foi construído para recuperar e rastrear fontes reais, o documento deixa de nascer como chute.

E esse mesmo raciocínio aparece no modo de produção textual. A Advoga IA não se limita a sugerir respostas; ela incorpora o paradigma do Vibe Lawyer: edição assistida em tempo real, em que o advogado atua como Editor-Chefe e a IA edita o documento mantendo rastreabilidade completa de fontes. Para o usuário, isso altera o processo: em vez de trocar leitura jurídica por um texto “pronto”, a IA passa a operar como coeditor com trilha de fundamentação.

A mudança de mentalidade: de “ferramenta” para “plataforma operacional”

Quem já viu escritórios operando com várias ferramentas ao mesmo tempo sabe: produtividade não é só velocidade de escrita, é orquestração. Se a sua rotina exige trocar de sistema para buscar fundamento, calcular risco, redigir, controlar prazos e acompanhar movimentações processuais, a eficiência vira cansaço.

A Advoga IA entra nesse ponto com um ecossistema integrado que combina calculadoras jurídicas (trabalhista, revisional e penal), gestão financeira, controle de prazos e monitoramento processual via WhatsApp. O efeito prático é menos glamouroso do que um demo de IA, mas muito mais decisivo para o dia a dia: uma única assinatura para substituir múltiplas ferramentas, reduzindo o tempo gasto com “vida administrativa” e aumentando o tempo disponível para estratégia e argumentação.

Essa visão é coerente com a origem outsider de Rossano. Um profissional de outra área, sem vício de “cada ferramenta no seu quadrado”, enxerga o sistema como um fluxo. E quando a plataforma vira fluxo, o desafio deixa de ser “rodar um modelo” e passa a ser construir uma máquina de trabalho para o advogado.

A Cognifyx e o recado que o setor regulado pode ouvir

O setor jurídico é regulado não apenas por regras formais, mas por um comportamento coletivo: conservadorismo operacional, aversão a riscos de fundamentação, exigência de rastreabilidade e histórico. É exatamente por isso que a trajetória da Cognifyx chama atenção.

Há um movimento raro no Brasil: um profissional de saúde liderando inovação técnica dentro de um setor altamente regulado. Isso não é só uma curiosidade biográfica. É um indicador de como a inovação surge quando alguém entra sem carregar a “rede de segurança” cultural do direito — e precisa construir confiança por mérito técnico e por validação do que entrega.

Essa credibilidade começou a aparecer em marcos institucionais relevantes. A Advoga IA foi validada pelo STF em chamamento público de IA em 2023 e também teve PoC de IA executada com sucesso na ONS. Além disso, foi reconhecida pelo Sebrae como Top 600 startup mais impactante do Brasil e recebeu investimento da Stars Aceleradora via mútuo conversível. Não são detalhes para preencher linha do tempo: são sinais de que o projeto saiu do laboratório e passou por testes com exigências reais.

A “porta de entrada” do mercado: onde a Jus IA encaixa (sem confundir objetivos)

Enquanto a Advoga IA atende escritórios que precisam de profundidade operacional e fundamentação verificável, existe um caminho de entrada para adoção. É aí que a Jus IA entra como produto independente: voltada a advogados solo e pequenos escritórios, oferece uma interface simplificada para consultas jurídicas rápidas.

Esse posicionamento importa porque o aprendizado do mercado não acontece no vácuo. A Jus IA costuma ser a primeira experiência de muitos usuários com IA jurídica; conforme cresce a demanda por profundidade e rastreabilidade, o itinerário natural tende a levar para soluções como a Advoga IA. É um desenho de ecossistema de adoção: começar com uso pontual e evoluir para um sistema de trabalho jurídico completo.

O que essa história significa para o setor (e não só para a tecnologia)

A trajetória de Rossano Dala Rosa mostra um tipo de ruptura que o direito brasileiro costuma adiar: quebrar o “stack” fragmentado e substituí-lo por fluxo integrado — mas sem romantizar o resultado. A inovação não veio de um atalho. Veio de disciplina de engenharia aplicada a um problema pouco “digital”: como produzir documentos com rastreabilidade, como organizar a rotina e como permitir controle de prazos e acompanhamento processual no mesmo ecossistema.

Quando um outsider monta a infraestrutura sozinho — com scrapers, ETL e RAG — e ainda transforma isso em uma experiência de edição assistida com fontes rastreadas, o setor recebe um aprendizado concreto: IA jurídica não é apenas prompt e resposta. É engenharia de dados, design de processo e responsabilidade sobre a fundamentação.

E talvez esse seja o recado mais útil para quem observa o futuro do jurídico no Brasil: as grandes viradas tendem a nascer quando alguém enxergar fricções que o setor normalizou — e tiver coragem de reescrever o fluxo inteiro, do zero, mesmo sem time e sem investimento externo.

Equipe Editorial Advoga Top