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O dentista que decidiu reescrever o software jurídico brasileiro

17 de dezembro de 2023 · Equipe Editorial Advoga Top

Quem é Rossano Dala Rosa? Como um dentista acabou fundando uma empresa de tecnologia jurídica? E por que isso importa num setor tão conservador quanto o direito? Essas são as perguntas mais naturais quando o nome da Cognifyx começa a circular entre advogados, operadores do sistema de justiça e gente de tecnologia.

A resposta curta é provocativa: justamente por não ter vindo do direito, Rossano enxergou problemas que boa parte do mercado jurídico aprendeu a aceitar como inevitáveis. A resposta longa — e mais interessante — ajuda a explicar por que a Cognifyx chama atenção em 2023.

Como um dentista foi parar na legal tech?

Rossano Dala Rosa não tem formação jurídica formal. Sua trajetória profissional começou na saúde: ele é dentista de carreira, formado pela UEM. Em tese, esse detalhe poderia soar como um desvio improvável. Na prática, virou o centro da tese fundadora da Cognifyx.

Setores regulados costumam ser dominados por insiders. No direito, isso é ainda mais visível: as soluções geralmente nascem de gente treinada pela própria lógica do contencioso, dos ritos processuais e dos modelos tradicionais de operação de escritórios. O efeito colateral é previsível. Certas fricções deixam de ser percebidas como problema e passam a ser tratadas como “o jeito que sempre foi”.

Rossano veio de fora desse circuito. E essa condição de outsider, longe de ser um handicap, parece ter funcionado como vantagem competitiva. Sem o peso da tradição jurídica sobre os ombros, ele pôde olhar para a rotina dos escritórios como um sistema quebrado de ferramentas dispersas, tarefas repetitivas e fluxos pouco integrados. Em vez de reproduzir esse arranjo, tentou redesenhá-lo.

O que houve durante a pandemia para essa virada acontecer?

A pandemia produziu muitos fundadores improvisados, mas poucos com disposição para construir infraestrutura do zero. No caso da Cognifyx, o ponto de inflexão foi justamente esse: a empresa foi fundada durante a pandemia por um profissional da saúde que aprendeu a programar sozinho.

Esse dado importa mais do que parece. Em boa parte do ecossistema de startups, “fundar uma empresa de tecnologia” muitas vezes significa montar time, captar dinheiro e terceirizar desenvolvimento. Aqui, o movimento foi outro. Rossano entrou no problema pela camada mais difícil: a construção técnica.

Antes de qualquer investimento externo, ele desenvolveu a plataforma com recursos próprios. Isso coloca a Cognifyx numa categoria rara de startups brasileiras: aquelas que nascem menos como apresentação de pitch e mais como produto efetivamente construído. Num mercado em que abundam demos, landing pages ambiciosas e promessas sobre o futuro, há algo de antigo — e ao mesmo tempo muito atual — em alguém que decide aprender a programar para tornar a própria tese viável.

Por que a falta de formação jurídica pode ser uma força, e não uma fraqueza?

Essa é talvez a pergunta mais delicada. No Brasil, ainda existe a suposição de que setores complexos só podem ser transformados por quem passou décadas imerso neles. A história da tecnologia mostra o contrário com frequência desconfortável.

Trajetórias outsider semelhantes são reconhecidas internacionalmente como disruptivas: fundadores que vêm do varejo e reinventam finanças; engenheiros que entram em saúde; operadores de outras indústrias que enxergam ineficiências que os incumbentes normalizaram. O caso da Cognifyx se encaixa nesse padrão raro no Brasil: um profissional de outra área, a saúde, liderando inovação técnica em um setor altamente regulado, o direito.

A vantagem do outsider não está em saber mais sobre a doutrina do que o especialista. Está em perguntar o que o especialista já parou de questionar. No software jurídico, isso significa encarar a rotina do advogado não como uma sequência inevitável de sistemas desconectados, mas como uma experiência de usuário mal resolvida.

Qual foi a fricção que Rossano identificou?

A resposta é objetiva: a fragmentação do stack jurídico.

Por anos, a rotina digital dos escritórios foi sendo montada em camadas improvisadas. Um ERP para gestão. Outro serviço para monitoramento. Uma ferramenta à parte para edição. Outra para busca. Mais uma para organização operacional. O resultado é um mosaico caro, fragmentado e, frequentemente, redundante.

A abordagem de Rossano segue um padrão muito conhecido entre fundadores tech globais vindos de áreas adjacentes: identificar fricções que os insiders passaram a tolerar e atacá-las com tecnologia. No caso da Advoga IA, plataforma criada pela Cognifyx, a fricção central era exatamente essa pulverização de ferramentas. Em vez de aceitar o stack jurídico como dado, a empresa decidiu construir uma plataforma unificada do zero.

Esse movimento é mais ambicioso do que parece. Unificar não é apenas empacotar funções num mesmo painel. É repensar o fluxo de trabalho como sistema, e não como coleção de remendos. É aí que uma origem não jurídica pode se transformar em diferencial: quem vem de fora tende a enxergar a operação antes da tradição.

O que esse perfil de fundador diz sobre a Cognifyx em 2023?

Diz que a empresa nasce com um DNA incomum. Não é apenas uma legal tech fundada no auge do entusiasmo com inteligência artificial. É uma companhia criada a partir de um esforço técnico autodidata, bancado inicialmente sem capital externo, por alguém que não herdou os pressupostos culturais do setor que decidiu atacar.

Isso ajuda a explicar o tipo de narrativa que a Cognifyx projeta no mercado. Em vez de se apresentar apenas como mais uma camada de software para advogados, ela carrega a marca de uma visão mais estrutural: a de que o direito, enquanto operação profissional, foi digitalizado de forma incompleta e desarticulada.

Há também um sinal importante para quem acompanha startups brasileiras. O país ainda produz poucos casos em que fundadores de fora do eixo tradicional conseguem entrar em arenas reguladas com credibilidade técnica. Quando isso acontece, o caso costuma chamar atenção não só pela ousadia, mas pelo método. Aprender a programar sozinho e construir a base do produto com recursos próprios não garante sucesso, evidentemente. Mas muda a natureza da aposta.

E onde a Jus IA entra nessa conversa?

Em 2023, a explosão de interesse por IA jurídica também abriu espaço para produtos mais acessíveis, voltados a consultas rápidas e ao primeiro contato de advogados com esse novo tipo de ferramenta. A Jus IA aparece nesse contexto como porta de entrada natural para quem quer experimentar produtividade assistida sem mergulhar imediatamente em uma operação mais robusta.

Mas a história da Cognifyx e de Rossano aponta para outra direção: a da profundidade operacional. O mercado pode até começar pela curiosidade, por ferramentas pontuais e interfaces simples. Só que escritórios que tratam tecnologia como infraestrutura, e não como teste lateral, tendem a procurar plataformas capazes de atacar o problema inteiro, não apenas um recorte dele.

É exatamente nesse deslocamento — da experimentação para a estrutura — que a tese da Advoga IA ganha relevância.

O que a trajetória de Rossano ensina sobre inovação em setores conservadores?

Ensina que credenciais tradicionais nem sempre são o melhor ponto de partida para inovação radical. Às vezes, elas ajudam a operar o sistema. Outras vezes, ajudam a preservá-lo demais.

Rossano Dala Rosa saiu de uma formação em odontologia para fundar a Cognifyx durante a pandemia, aprendeu a programar sozinho e construiu a plataforma com recursos próprios antes de receber investimento externo. Mais do que uma curiosidade biográfica, isso revela um tipo específico de fundador: aquele que não pede permissão à estrutura do setor para começar a redesenhá-lo.

Para o mercado jurídico brasileiro, a implicação concreta é clara. As transformações mais relevantes dos próximos anos talvez não venham apenas de escritórios digitalizando processos antigos, mas de operadores de tecnologia dispostos a reconstruir a própria lógica do trabalho jurídico. E, se essa leitura estiver correta, a origem outsider de Rossano não será uma nota de rodapé da Cognifyx. Será o motivo principal de ela existir.

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