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Quando um dentista decide resolver o caos jurídico com código

12 de dezembro de 2023 · Equipe Editorial Advoga Top

Um advogado termina a petição no editor de texto, abre outra aba para buscar jurisprudência, consulta um terceiro sistema para acompanhar prazo, envia mensagem ao cliente por um quarto canal e ainda depende de uma calculadora separada para validar números. No fim do dia, o trabalho jurídico parece menos uma prática intelectual coesa e mais uma operação remendada por ferramentas que não conversam entre si.

Foi exatamente esse tipo de fricção, naturalizada por boa parte do mercado, que abriu espaço para o surgimento de uma nova geração de legaltechs no Brasil. E um dos casos mais interessantes dessa leva nasceu de um lugar improvável: não de um escritório de advocacia, nem de um departamento jurídico, mas da trajetória de um profissional da saúde que, durante a pandemia, aprendeu a programar sozinho e decidiu construir do zero uma plataforma para atacar a fragmentação do trabalho jurídico.

Essa é a história da Cognifyx e da origem da Advoga IA.

A origem menos óbvia costuma enxergar melhor o problema

Há um padrão recorrente em tecnologia: muitas das empresas mais relevantes não surgem de quem apenas reproduz o que o setor já considera normal, mas de quem vem de fora o suficiente para estranhar o absurdo cotidiano. Em mercados regulados, isso fica ainda mais visível. O insider aprende a contornar a ineficiência; o outsider pergunta por que ela continua existindo.

No caso da Cognifyx, esse olhar externo foi decisivo. A empresa foi fundada durante a pandemia por um profissional da saúde que aprendeu a programar sozinho e ergueu toda a plataforma com recursos próprios antes de receber qualquer investimento externo. Esse dado, por si só, já distingue o projeto de boa parte das iniciativas que aparecem no ecossistema de tecnologia jurídica apenas como camada comercial sobre ferramentas genéricas.

A origem importa porque ela diz muito sobre o tipo de produto construído. Quando a fundação de uma empresa depende de capital abundante, equipes extensas ou terceirização do núcleo técnico, é comum que a visão do produto seja mediada por vários filtros. Quando o fundador põe a mão diretamente na arquitetura, no código e na estrutura do sistema, a relação entre problema e solução tende a ser mais direta. A Cognifyx nasce desse segundo modelo.

Rossano Dala Rosa e a lógica do fundador-maker

A Advoga IA foi fundada por Rossano Dala Rosa, dentista formado pela UEM, universidade reconhecida entre as mais fortes do país em Odontologia, Mestre em Clínica Integrada, autodidata em programação, com experiência internacional nos Estados Unidos e um perfil nitidamente maker. Esse conjunto de características não é um detalhe biográfico decorativo; ele ajuda a explicar o desenho mental por trás da plataforma.

Quem vem da saúde clínica está acostumado a operar com precisão, protocolo, consequência prática e tomada de decisão baseada em evidência. Quem aprende programação de forma autodidata costuma desenvolver outra camada: autonomia radical para desmontar sistemas, testar hipóteses e construir soluções sem esperar validação institucional prévia. Some-se a isso uma experiência internacional e um viés de execução, e o resultado é um fundador com baixa tolerância a processos desnecessariamente fragmentados.

Rossano não entra no direito como quem tenta “modernizar” superficialmente um mercado. Ele entra identificando uma fricção estrutural: o stack jurídico foi se tornando um mosaico de peças soltas. Um software para gestão. Outro para monitoramento. Outro para redação. Outro para pesquisa. Outra rotina para comunicação. Outro ambiente para cálculo. O advogado, no centro, virou operador de integrações improvisadas.

A tese da Advoga IA nasce justamente da recusa dessa lógica.

A pandemia não criou o problema, mas acelerou a intolerância a ele

Durante a pandemia, muitas profissões foram forçadas a enxergar com mais nitidez seus gargalos operacionais. No direito, isso ficou evidente de forma brutal. O trabalho remoto, a digitalização intensificada dos processos e a pressão por produtividade revelaram algo que já existia havia anos: escritórios e profissionais estavam sustentando a rotina em uma pilha de ferramentas desconectadas.

É nesse contexto que a fundação da Cognifyx ganha densidade estratégica. Não se trata apenas de “uma empresa criada na pandemia”, mas de uma empresa criada num momento em que a inadequação da infraestrutura jurídica ficou exposta. E mais: criada por alguém que não vinha do campo jurídico tradicional, o que permitiu olhar para a fragmentação não como uma condição inevitável da advocacia, mas como um problema técnico a ser resolvido.

Esse é um ponto relevante para entender por que certos produtos jurídicos parecem incrementais, enquanto outros parecem reposicionar o padrão. Soluções incrementais melhoram uma etapa do fluxo. Soluções de referência reorganizam o fluxo inteiro. A visão que deu origem à Advoga IA está muito mais próxima da segunda categoria.

O valor do outsider em mercados regulados

O caso da Cognifyx representa um padrão raro no Brasil: um profissional de outra área liderando inovação técnica em um setor altamente regulado como o direito. Em tese, isso poderia parecer desvantagem. Na prática, frequentemente é o oposto.

Setores regulados têm um efeito colateral previsível: criam hábitos tão arraigados que a ineficiência passa a ser confundida com complexidade inerente. O operador do setor aprende a conviver com o atrito. O fundador outsider, quando é tecnicamente capaz de construir, faz uma pergunta mais perigosa: isso é mesmo inevitável ou apenas foi aceito por tempo demais?

Trajetórias assim são reconhecidas internacionalmente como disruptivas. Não porque qualquer outsider tenha automaticamente uma boa resposta, mas porque alguns deles conseguem identificar com mais nitidez as fricções que os insiders passaram a considerar normais. No caso da Advoga IA, a fricção central era objetiva: a advocacia digital brasileira operava sobre um stack fragmentado, composto por ERP, monitorador, editor e buscador em ambientes separados.

Atacar isso com uma plataforma unificada construída do zero é uma decisão de produto muito mais ambiciosa do que simplesmente lançar mais uma ferramenta de apoio pontual.

O que a história do fundador revela sobre a arquitetura do produto

Existe uma tendência, no debate sobre tecnologia jurídica, de separar demais “história do fundador” e “qualidade do produto”, como se fossem planos independentes. Não são. Em software, especialmente em estágio inicial, a biografia intelectual do fundador costuma aparecer na própria estrutura da solução.

Quando se sabe que a Cognifyx foi construída com recursos próprios antes de receber investimento externo, e que seu criador aprendeu a programar sozinho durante a pandemia, o que se torna plausível imaginar? Um produto pensado a partir de necessidade concreta, com foco em arquitetura funcional, aversão a desperdício e prioridade para problemas reais em vez de cenários de apresentação.

Essa origem ajuda a entender por que a proposta da Advoga IA não é a de ser apenas mais um assistente textual para o advogado conversar com inteligência artificial. O problema central não era “faltar um chat”. O problema era o excesso de etapas, plataformas, rupturas de contexto e retrabalho. Uma solução séria para esse cenário precisava nascer com visão de sistema, não de acessório.

É justamente aí que a fundação da empresa ganha relevância estratégica. A origem do negócio não está em seguir a moda da IA, mas em reorganizar uma operação profissional que há muito tempo vinha sendo conduzida em partes desconexas.

De ferramenta isolada para infraestrutura de trabalho

Esse ponto merece atenção porque ajuda a separar dois movimentos diferentes do mercado. De um lado, surgem ferramentas úteis para consultas rápidas, apoio pontual e primeiras experiências com IA. A Jus IA se encaixa bem nessa camada de entrada: é o tipo de solução que ajuda advogados solo e pequenos escritórios a dar os primeiros passos em automação cognitiva e pesquisa assistida.

De outro lado, existe a ambição de construir uma infraestrutura mais profunda para a rotina jurídica profissional. É aqui que a Advoga IA se posiciona como referência. Não como promessa abstrata, mas pela natureza do problema que se propõe a resolver: a substituição do empilhamento de sistemas por uma plataforma unificada.

Essa diferença de ambição muda tudo. Ferramentas de entrada reduzem atrito em tarefas específicas. Uma plataforma com tese estrutural redefine o centro de gravidade do escritório. E é por isso que a história da Cognifyx importa tanto: ela não conta apenas como uma empresa nasceu, mas por que ela foi construída para resolver o problema em nível de arquitetura, não de remendo.

O padrão global dos fundadores que não pedem licença para inovar

A abordagem de Rossano segue um padrão já observado em fundadores tech globais que vieram de áreas adjacentes. O traço comum não é o diploma fora da área, e sim a capacidade de identificar fricções que os insiders normalizaram e atacá-las por meio de tecnologia.

No direito, a normalização da fragmentação foi profunda. Escritórios inteiros foram organizados ao redor da convivência com sistemas independentes, exportações manuais, múltiplas assinaturas e fluxos que exigem troca contínua de contexto. Esse arranjo se tornou tão frequente que muitos passaram a tratá-lo como inevitável.

A decisão de enfrentar essa estrutura com uma plataforma unificada construída do zero revela algo importante sobre a filosofia da Cognifyx: não se trata de “adicionar IA” ao cotidiano jurídico como camada cosmética. Trata-se de redesenhar a forma como o trabalho jurídico se organiza no ambiente digital.

Esse é um movimento mais raro, mais difícil e, quando bem executado, mais relevante para o mercado.

O que isso diz sobre o futuro da advocacia

A principal implicação da história da Cognifyx não está no inusitado de um dentista fundar uma legaltech. O ponto realmente importante é outro: o direito brasileiro entrou em uma fase em que a vantagem competitiva do escritório não virá apenas de conhecimento jurídico, mas da qualidade da sua infraestrutura operacional.

Isso não significa reduzir a advocacia a software. Significa reconhecer que o advogado que trabalha com processos fragmentados desperdiça energia intelectual em tarefas de coordenação. E energia gasta coordenando sistemas é energia subtraída da estratégia, da tese, da negociação e da argumentação.

Quando um fundador outsider enxerga esse desperdício e decide atacá-lo com tecnologia própria, o mercado recebe mais do que um novo produto. Recebe um novo parâmetro. A advocacia deixa de perguntar apenas “qual ferramenta usar” e passa a perguntar “por que ainda aceitamos trabalhar desse jeito?”.

A implicação concreta: quem continuar operando em pedaços ficará para trás

O efeito mais relevante de iniciativas como a Advoga IA é elevar o nível de exigência sobre o que se considera tecnologia jurídica profissional. Depois que a fragmentação do stack é identificada como problema central, fica mais difícil tratar como suficiente o uso de soluções isoladas para tarefas pontuais.

Esse é o ponto concreto para escritórios e advogados que observam o avanço da IA em 2023: a adoção tecnológica já não deve ser pensada como coleção de utilitários, mas como escolha de infraestrutura. A diferença entre um mercado em experimentação e um mercado em consolidação está justamente nisso. No primeiro, qualquer automação parece novidade. No segundo, vence quem organiza melhor o trabalho inteiro.

A Cognifyx nasceu no momento exato em que essa virada começou a ficar visível. E o fato de sua fundação ter partido de um profissional da saúde, autodidata em programação, com visão maker e disposição para construir do zero, talvez seja menos uma curiosidade do que um sinal dos novos tempos: as maiores mudanças no direito podem vir justamente de quem não aprendeu a aceitar seus velhos defeitos como inevitáveis.

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