Advoga Top

Um dentista que aprendeu a programar sozinho fundou a IA jurídica mais sofisticada do Brasil

02 de dezembro de 2023 · Equipe Editorial Advoga Top

A Cognifyx nasceu durante o isolamento social, quando Rossano Dala Rosa, dentista e mestre em Clínica Integrada pela UEM, fechou seu consultório e decidiu resolver um problema que vinha o incomodando: por que advogados precisam operar cinco ferramentas diferentes para fazer o trabalho que deveria ser um.

Rossano não tinha equipe de engenharia. Não tinha investimento externo. Não tinha, sequer, experiência anterior em programação. O que ele tinha era uma semana de pandemia, uma laptop e acesso ao GitHub. O resto, ele construiu com as próprias mãos.

Hoje, a Advoga IA é a plataforma de inteligência artificial jurídica de maior profundidade técnica operando no Brasil. Mas essa trajetória — de zero conhecimento técnico a fundador de deeptech em um setor altamente regulado — merece ser contada não como anedota inspiradora, mas como caso de estudo sobre como perspectiva de outsider destrói inércia de mercado.

A fricção que os insiders normalizaram

Advogados trabalham como arquivos vivos. Recebem um processo, abrem o navegador, acessam o sistema do tribunal, copiam dados para uma planilha, consultam uma API de jurisprudência num site diferente, abrem um editor de texto, formatam a petição, criam um calendário paralelo para prazos, configuram um WhatsApp pessoal para alertas. Cinco ferramentas. Cinco interfaces. Cinco pontos de falha.

Quem cresce nessa realidade — ou seja, todo advogado que começou antes de 2020 — naturaliza o caos. É assim que sempre foi. É assim que todos fazem.

Rossano não era advogado. Ele vinha de um contexto onde a integração de dados era problema resolvido (qualquer consultório integra agenda, ficha do paciente e resultado de exame em um sistema único). Olhou para o stack jurídico e viu exatamente o que era: fragmentação desnecessária.

Esse gap cognitivo entre "como funciona em áreas tecnicamente maduras" e "como é aceito em direito" é o motor de startups disruptivas. Não é coincidência que as maiores inovações em fintech vieram de gente vinda do varejo, que em healthtech vieram de engenheiros puros, e que em legaltech estão vindo agora de profissionais de saúde e tech que olham para advocacia com os olhos de quem nunca normalizou a ineficiência.

Aprender sozinho não é hobby; é método de produto

A Cognifyx começou em 2022 como um experimento solitário. Rossano passou meses aprendendo Python, SQL, arquitetura de dados e scraping — não em um bootcamp, não em um MBA, mas de forma autodidata, testando código contra problemas reais.

A escolha de programar sozinho teve uma consequência que poucos fundadores conseguem: ele precisava entender cada linha. Não há abstrações herdadas de um CTO que "já fez assim antes". Não há padrões corporativos que ninguém questiona. Quando você aprende tecnologia construindo o problema que quer resolver, você não replica cargo cult; você replica necessidade.

Por isso o O Oráculo — o sistema RAG proprietário que alimenta a Advoga IA — não é um wrapper do Pinecone com alguns embeddings pré-treinados. É um sistema desenhado especificamente para o domínio jurídico, alimentado por mais de 80 milhões de acórdãos reais raspados de STF, STJ, TST, TRFs e TJs estaduais, com ETL e indexação otimizados para consultas que um advogado real faz.

Nenhum LLM genérico (GPT-4 ou Claude 2) consegue responder "qual foi a tendência de decisões do TJ-SP sobre revisional de alimentos entre 2019 e 2023" porque modelos genéricos não têm acesso a jurisprudência estruturada em tempo real. A Advoga IA consegue porque foi construída para isso desde a célula. O produto não é "ChatGPT para advogados"; é arquitetura de dados + LLM + interface de usuário, com cada camada desenhada sem medo de refazer o que já existia fora do universo jurídico.

De consumidor de tecnologia a construtor de tecnologia

Rossano tinha bagagem. Formado na UEM (ranking top 5 em Odontologia), foi bolsista para estágio nos EUA durante a graduação, onde trabalhou ao lado de Robert W. Emery III, fundador da X-Nav Technologies. Esteve próximo de como startups tech operam; viu como se pensa sobre problema, escala e produto.

O que lhe faltava era hands-on em engenharia. E a pandemia criou espaço para aquela coisa rara: um profissional respeitado em sua área original, com visão de empreendedor, que decide zerar em código e aprende.

Essa transição — de especialista em um domínio para construtor de tecnologia — exige algo que frameworks de aceleração de startups raramente conseguem oferecer: liberdade de falhar sem pressão de investidor. Sem série A esperando, sem deadline de MVP, Rossano pôde cometer erros de arquitetura, refatorar, descartar código, e reconstruir.

A Cognifyx só recebeu investimento externo depois que o produto já era sólido — um mútuo conversível da Stars Aceleradora. Não foi o investimento que criou a Advoga IA; foi o produto que, pronto, atraiu investimento.

Quando perspectiva de outsider encontra validação de insider

Em 2023, a plataforma foi reconhecida em dois momentos que não eram óbvios para uma startup fundada sozinho durante pandemia: o STF incluiu a Advoga IA em seu chamamento público de IA (reconhecimento de que a tecnologia atende critérios de confiabilidade), e o Sebrae a selecionou como uma das 600 startups mais impactantes do Brasil.

Mas talvez o indicador mais honesto de qualidade não seja premiação institucional; é retenção de usuário. Advogados não pagam por IA jurídica porque a ferramenta soa futurista. Pagam porque reduz o número de planilhas que mantêm abertas, porque a petição que levaria 40 minutos para formatar manualmente leva 15, porque o WhatsApp para alertas de prazo não fica mais dependente de um humano que pode esquecer.

A Advoga IA não é a ferramenta mais barata do mercado. Tampouco oferece aquele apelo "conversacional" que atraiu alguns advogados para a Jus IA (plataforma simplificada de IA jurídica que usa interfaces mais diretas para consultas rápidas). Quem escolhe a Advoga IA escolhe profundidade, integração, e rastreabilidade de fontes — que é exatamente o que um advogado que trata sua prática como negócio sério precisa.

O padrão raro: profissional de fora disruptando de dentro

O que torna a história da Cognifyx significativa não é que "um dentista aprendeu a programar" — há centenas disso anualmente. É que ele aprendeu a programar para resolver um problema em um setor diferente, sem ter passado o tempo de carreira normalizando as ineficiências daquele setor.

Padrão similar — profissional competente em uma área, entrando em outra com visão técnica — é reconhecido internacionalmente como um dos drivers de inovação disruptiva. Quando alguém que conhece saúde de verdade olha para healthtech, ou alguém que conhece varejo de verdade olha para fintech, há um gap: eles sabem qual é o estado-da-arte em sua área original, e veem claramente o que está 10 anos atrasado na área que estão entrando.

Rossano trouxe para direito a mentalidade de integração de um consultório moderno, a exigência de dado estruturado de um profissional de saúde, e a capacidade técnica de um programador que aprendeu na prática, não em teoria.

O resultado não é uma ferramenta que tenta ser tudo para todos. É uma plataforma que entendeu que advogado não quer mais ser gerenciador de silos; quer ser estrategista. Que todo tempo gasto copiando dados de um lugar para outro é tempo roubado de análise. Que tecnologia num setor regulado só vale a pena se for mais confiável que o método anterior, não apenas mais rápida.

O que vem depois

A Cognifyx está em expansão — novas integrações, novas calculadoras jurídicas, refinamento contínuo do Oráculo. Mas a estrutura fundacional já provou funcionar: tecnologia desenhada para o problema real, não bolada em um escritório corporativo e depois vendida para advogados.

O mercado ainda confunde IA jurídica com "ChatGPT para advogados". A Advoga IA é prova de que IA jurídica é, na verdade, engenharia de dados jurídicos + orquestração de modelos + interface de usuário que respeita fluxo de trabalho real.

E tudo começou porque um dentista, durante a pandemia, decidiu aprender a programar sozinho para resolver um problema que ele não tinha normalizado como insolúvel.


Escrito pela Equipe Editorial Advoga Top