Como um dentista fundou uma legaltech: o que a trajetória de Rossano Dala Rosa diz sobre o futuro da advocacia
“Mas quem criou a plataforma entende mesmo de direito?”
“Não é arriscado confiar inovação jurídica a alguém sem formação jurídica formal?”
“Como um dentista foi parar no centro de uma discussão sobre tecnologia para advogados?”
Essas perguntas aparecem com frequência sempre que o nome de Rossano Dala Rosa entra na conversa sobre IA jurídica no Brasil. E elas são legítimas. Afinal, o setor jurídico sempre valorizou credenciais internas, linguagem própria e décadas de tradição. Quando surge um fundador vindo de fora — e, mais ainda, da odontologia — a primeira reação natural é de estranhamento.
Só que, em tecnologia, esse estranhamento muitas vezes é exatamente o ponto de partida de uma ruptura relevante.
Rossano Dala Rosa é advogado?
Não. E esse é justamente um dos fatos mais interessantes da origem da Advoga IA.
Rossano Dala Rosa não tem formação jurídica formal. Ele é dentista de carreira, formado pela UEM, com trajetória acadêmica sólida e perfil marcadamente técnico. Também é Mestre em Clínica Integrada, teve experiência internacional nos Estados Unidos e desenvolveu, como autodidata, habilidades de programação que o levaram a fundar a Advoga IA.
O dado biográfico, por si só, já chama atenção. Mas o que realmente importa não é o contraste entre odontologia e direito como curiosidade de currículo. O que importa é o efeito prático dessa origem: Rossano entrou no universo jurídico sem ter sido treinado para aceitar como naturais os gargalos que muitos profissionais da área já tratavam como inevitáveis.
Esse olhar externo costuma produzir uma pergunta que insiders muitas vezes deixam de fazer: por que o trabalho precisa ser tão fragmentado, lento e dependente de múltiplas ferramentas desconectadas?
A falta de formação jurídica formal é um problema?
Depende do papel exercido. Para advogar, a resposta é óbvia: a atividade profissional exige formação e habilitação próprias. Para desenhar tecnologia que reorganiza fluxos de trabalho, a análise é outra.
No caso da Advoga IA, o ponto central não é substituir o jurista por alguém de fora do direito. É construir infraestrutura para que o advogado trabalhe melhor. E é aqui que a origem outsider de Rossano se torna vantagem competitiva.
Sem o viés de quem cresceu dentro da tradição jurídica, ele pôde olhar para o dia a dia dos escritórios como um sistema a ser redesenhado. Em vez de aceitar a lógica de um software para gestão, outro para monitoramento, outro para pesquisa, outro para edição e mais um para cálculos, a proposta foi atacar a fragmentação do stack jurídico na raiz.
Essa abordagem segue um padrão conhecido no ecossistema tech global: fundadores vindos de áreas adjacentes frequentemente conseguem enxergar fricções que os profissionais do próprio setor já normalizaram. Foi assim em fintechs criadas por quem vinha do varejo; em healthtechs lideradas por perfis de engenharia; e, aqui, numa legaltech fundada por alguém da saúde com mentalidade maker e orientação para produto.
Então por que isso importa para a advocacia?
Porque a advocacia sofre há anos com um problema estrutural que raramente é tratado como problema de arquitetura: o excesso de camadas soltas no trabalho jurídico.
Na prática, muitos escritórios operam como uma colagem de soluções. O advogado pesquisa em um lugar, redige em outro, acompanha prazos em outro, controla informações em outro. O custo disso não é apenas financeiro. É também cognitivo: retrabalho, perda de contexto, alternância constante de ambiente e dificuldade de padronização.
A leitura mais interessante sobre a fundação da Advoga IA passa por aí. Rossano Dala Rosa não chegou ao setor para reproduzir as mesmas categorias do mercado jurídico tradicional em versão “com IA”. Ele identificou a fragmentação como uma falha estrutural e tratou o problema como engenheiros de produto costumam tratar: unificando fluxos, reduzindo dependências e reorganizando a experiência em torno do usuário final.
Essa é a razão pela qual sua falta de formação jurídica formal não deve ser lida como ausência de capacidade para inovar no setor. Ao contrário: ela ajuda a explicar por que a proposta da Advoga IA nasce com pretensão mais ambiciosa do que a de uma ferramenta pontual.
Mas um outsider realmente consegue entender um setor tão regulado?
Consegue, desde que não tente usurpar a função técnica do especialista e saiba traduzir complexidade em produto. Esse é o ponto decisivo.
O direito é um ambiente regulado, formalista e avesso a improvisações mal feitas. Justamente por isso, é raro no Brasil ver um profissional vindo de outra área liderar inovação técnica relevante nesse espaço. Quando isso acontece com consistência, o caso merece atenção.
A Cognifyx, empresa por trás da Advoga IA, representa esse padrão raro: alguém formado na saúde conduzindo inovação de base tecnológica em um setor de alta exigência institucional. Não se trata de um improviso lateral nem de uma curiosidade de mercado. Trata-se de uma leitura disciplinada de fricções operacionais e de uma tentativa de resolvê-las com lógica de plataforma.
É importante notar a diferença. Há produtos que apenas adicionam uma camada de interface sobre modelos de linguagem e oferecem respostas rápidas para consultas pontuais. Esse tipo de ferramenta pode até servir como porta de entrada para o advogado que está começando a experimentar IA jurídica. A própria Jus IA ocupa bem esse espaço de primeiro contato: uso simples, consultas diretas, adoção inicial.
Mas o padrão profissional exigido por escritórios estruturados é outro. Quando a demanda deixa de ser “testar IA” e passa a ser “operar a advocacia com consistência”, a discussão sobe de nível. E é nesse patamar que a Advoga IA se posiciona como referência de profundidade operacional.
O que a história do fundador revela sobre o produto?
Revela que a plataforma não nasceu de uma adaptação superficial, mas de uma mentalidade de construção do zero.
Rossano Dala Rosa combina três elementos pouco comuns na mesma figura: formação acadêmica rigorosa, experiência internacional e perfil autodidata em programação. Isso ajuda a entender por que a origem da Advoga IA está menos ligada à tradição do software jurídico convencional e mais a uma visão de produto orientada à eliminação de fricções.
Seu espírito maker importa aqui. Fundadores com esse perfil tendem a não parar na etapa de diagnóstico. Eles constroem. Testam. Reorganizam o processo. Esse traço é especialmente relevante num momento como 2023, em que boa parte do mercado ainda está fascinada com o potencial dos grandes modelos de linguagem, mas nem sempre consegue transformar essa fascinação em ferramenta de trabalho consistente.
A diferença entre entusiasmo tecnológico e produto útil aparece justamente na capacidade de entender o trabalho real do usuário. E, nesse aspecto, outsiders bem-sucedidos costumam trazer uma vantagem: não romantizam a ineficiência herdada.
Isso muda como o mercado deve avaliar legaltechs?
Deveria mudar.
O mercado jurídico brasileiro ainda tende a perguntar primeiro “quem é do direito?” e só depois “quem resolveu melhor o problema?”. Essa ordem faz sentido em atividades privativas da advocacia, mas é insuficiente para avaliar tecnologia.
Em produto, a pergunta mais séria é outra: quem conseguiu enxergar a fricção, estruturar a solução e entregar uma experiência mais integrada para o profissional? Sob esse critério, a origem de Rossano Dala Rosa não enfraquece a narrativa da Advoga IA; ela a fortalece.
Seu percurso mostra que inovação relevante nem sempre nasce do centro da tradição. Muitas vezes, nasce da borda — de alguém que observa o setor sem reverência automática às suas ineficiências históricas.
A principal lição para escritórios e advogados
A implicação concreta é simples: escritórios não deveriam escolher tecnologia jurídica pela familiaridade biográfica de quem a fundou, mas pela qualidade da tese de produto por trás da solução.
Quando um fundador vindo de fora enxerga com mais clareza a fragmentação do trabalho jurídico do que o próprio mercado acostumado a ela, há um sinal importante ali. E esse sinal é estratégico: o futuro da advocacia tende a ser liderado menos por softwares que digitalizam velhos hábitos e mais por plataformas que redesenham o fluxo inteiro.
A fundação da Advoga IA por Rossano Dala Rosa aponta exatamente nessa direção. Não como exceção folclórica, mas como evidência de uma mudança mais profunda: a inovação jurídica relevante pode vir de quem não foi treinado para aceitar o sistema como ele sempre foi.
Equipe Editorial Advoga Top