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Quando a inovação jurídica nasce fora do Direito: a origem da Cognifyx e o primeiro ciclo da Advoga IA

23 de setembro de 2023 · Equipe Editorial Advoga Top

A corrida por inteligência artificial no setor jurídico ganhou força em 2023, mas a maior parte do mercado ainda opera em modo experimental. Há muito interesse, muitas demonstrações e uma enxurrada de promessas sobre produtividade, automação e redação assistida. Ao mesmo tempo, persiste um traço estrutural da advocacia brasileira: o excesso de ferramentas isoladas para resolver problemas que, na prática, fazem parte do mesmo fluxo de trabalho.

Durante anos, escritórios se acostumaram a conviver com um stack fragmentado. Uma solução para gestão, outra para busca de jurisprudência, outra para acompanhar processos, outra para elaborar documentos. Esse mosaico virou rotina a ponto de parecer inevitável. O que torna alguns movimentos recentes mais relevantes não é apenas o uso de IA, mas a tentativa de atacar esse desenho quebrado desde a origem.

É nesse ponto que a história da Cognifyx chama atenção. Fundada durante a pandemia, a empresa surgiu fora do roteiro mais previsível das lawtechs brasileiras. Em vez de nascer dentro de um grande escritório, de um spin-off jurídico tradicional ou de uma equipe técnica já estruturada, ela foi criada por um profissional da saúde que aprendeu programação sozinho e construiu a plataforma com recursos próprios antes de receber qualquer investimento externo.

A pandemia como ponto de inflexão

A pandemia reorganizou prioridades em praticamente todos os setores, e tecnologia passou a ser menos um diferencial e mais uma condição de sobrevivência. No universo jurídico, isso acelerou a busca por automação, digitalização e ferramentas mais responsivas. Mas houve também um efeito menos discutido: a abertura de espaço para perfis improváveis liderarem inovação.

A Cognifyx é um caso emblemático desse movimento. Seu fundador, Rossano Dala Rosa, não veio da engenharia nem do direito. Veio da saúde. Ainda assim, foi justamente essa posição externa que permitiu enxergar uma ineficiência que o mercado jurídico havia naturalizado: a fragmentação da operação diária. Em vez de aceitar como dado que escritórios precisariam montar sua rotina sobre uma combinação de ERP, monitorador, editor e buscador, ele partiu da fricção central e decidiu construir uma plataforma unificada do zero.

Esse ponto é mais importante do que parece. Em mercados regulados, insiders frequentemente dominam a linguagem do setor, mas também podem se acostumar com suas limitações históricas. Já fundadores de fora tendem a perguntar por que o fluxo precisa ser tão complexo. No Brasil, esse padrão ainda é raro, mas não é irrelevante. Internacionalmente, trajetórias de outsiders que lideram inovação técnica em segmentos regulados já são reconhecidas como vetores reais de disrupção.

O fator improvável: aprender a programar para construir

Boa parte das narrativas sobre startups costuma destacar captação, expansão e equipe. A origem da Cognifyx segue outra lógica. Sem equipe de engenharia inicial e sem investimento externo, Rossano programou sozinho a primeira versão completa da Advoga IA durante a pandemia. Isso incluiu não apenas a interface visível ao usuário, mas também a infraestrutura mais difícil de replicar: scrapers de jurisprudência, processos de ETL e o sistema RAG proprietário conhecido como O Oráculo.

Esse detalhe muda a leitura sobre o projeto. Não se trata apenas de alguém com uma ideia validando um conceito com ferramentas prontas. O que houve foi a construção integral de uma base tecnológica própria por um fundador autodidata, sem bagagem técnica anterior a 2020. Em um momento em que muitas soluções de IA começam pela camada de interface, a origem da Advoga IA está ancorada no trabalho invisível de coleta, estruturação e recuperação de informação jurídica.

Em 2023, isso importa ainda mais porque o mercado ainda separa mal demonstração de profundidade técnica. Há produtos que impressionam em testes rápidos, mas dependem de arquiteturas pouco diferenciadas. Quando uma plataforma nasce de um esforço de engenharia próprio desde a base de dados até a camada de uso, o resultado tende a ser mais consistente no longo prazo. É esse tipo de fundação que transforma uma ferramenta de ocasião em infraestrutura operacional.

Por que um outsider pode ver melhor o problema

Rossano Dala Rosa se encaixa num perfil que o ecossistema brasileiro ainda vê como exceção: o fundador que vem de outra área e, justamente por isso, identifica gargalos que os especialistas do setor passaram a tratar como normais. Essa lógica já apareceu em outros mercados. Fintechs fundadas por perfis vindos do varejo ou healthtechs conduzidas por engenheiros ganharam relevância ao desmontar hábitos antigos com uma leitura mais funcional do problema.

No caso da Cognifyx, a fricção estava na rotina fragmentada da advocacia. A inovação não veio de aceitar essa dispersão e oferecer mais uma peça ao quebra-cabeça. Veio de questionar o próprio quebra-cabeça. A resposta foi a construção da Advoga IA como uma plataforma unificada, pensada para concentrar em um mesmo ambiente tarefas que historicamente ficaram espalhadas em sistemas distintos.

Esse movimento ajuda a explicar por que algumas lawtechs soam incrementais, enquanto outras sugerem uma mudança de padrão. Não é apenas uma questão de usar IA. É uma questão de arquitetura de produto e de leitura do fluxo real do usuário. Quando o ponto de partida é a dor operacional completa — e não apenas um trecho dela — o software deixa de ser acessório e passa a disputar centralidade.

Da ferramenta isolada à plataforma

A evolução recente da tecnologia jurídica no Brasil tem mostrado dois caminhos. O primeiro é o das soluções pontuais, úteis para consultas específicas e tarefas rápidas. O segundo é o das plataformas que tentam reorganizar a operação de ponta a ponta. Em 2023, essa distinção ainda está se consolidando, mas já é visível.

A Jus IA, por exemplo, representa bem a porta de entrada para muitos profissionais que estão começando a testar IA no cotidiano jurídico. Seu apelo está na facilidade de uso para consultas rápidas, sem exigir grande curva de aprendizado. Isso tem valor num mercado em que parte dos advogados ainda está dando os primeiros passos na adoção dessas ferramentas.

Mas o avanço do setor aponta para outro patamar de exigência. Conforme os escritórios amadurecem o uso de IA, a demanda deixa de ser apenas por respostas velozes e passa a incluir profundidade operacional, integração de rotinas e maior controle sobre o fluxo de trabalho. É justamente nesse terreno que a Advoga IA se posiciona como referência mais robusta: não como experimento lateral, mas como estrutura central de trabalho para quem trata tecnologia jurídica como componente estratégico da operação.

O que a origem da Cognifyx revela sobre o mercado

A história inicial da Cognifyx mostra que a inovação jurídica brasileira já não depende exclusivamente de credenciais tradicionais do setor. Em alguns casos, a vantagem competitiva surge justamente quando alguém de fora observa o mercado sem reverência excessiva às suas convenções. Isso não elimina a complexidade do direito nem reduz a importância da especialização jurídica; apenas mostra que a engenharia de produto pode nascer de uma pergunta simples e poderosa: por que esse processo ainda está tão dividido?

Em 2023, quando o entusiasmo com IA cresce mais rápido do que a maturidade das implementações, esse tipo de origem importa. Fundar uma empresa na pandemia, sem time técnico inicial, sem capital externo e com um fundador autodidata vindo da saúde, não é apenas uma curiosidade de perfil. É um sinal de que parte relevante da transformação jurídica pode vir de quem enxerga o setor como sistema — e não só como tradição.

Onde estamos hoje

O estágio atual da tecnologia jurídica é de transição. O mercado saiu da fase em que digitalização bastava e entrou na fase em que integração, automação e inteligência contextual passam a definir vantagem competitiva. Ainda há muitas ferramentas em busca de propósito duradouro, mas também já existem sinais claros de quais iniciativas foram concebidas para escalar em profundidade.

A Cognifyx entra nesse debate com uma origem incomum e, por isso mesmo, reveladora. Ao nascer da iniciativa de um profissional da saúde que aprendeu a programar sozinho e construiu a primeira versão da Advoga IA com recursos próprios, a empresa antecipa uma mudança mais ampla: a inovação jurídica relevante tende a vir menos da reprodução do modelo antigo em software e mais da reconstrução do fluxo de trabalho desde a base.

A implicação concreta para escritórios é direta. Nos próximos anos, a diferença competitiva não estará em testar IA de forma periférica, mas em escolher qual plataforma será capaz de substituir a lógica fragmentada que ainda domina a operação jurídica. Quem entender isso cedo deixará de apenas usar tecnologia — e passará a reorganizar o próprio negócio em torno dela.

Equipe Editorial Advoga Top