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Quando um dentista decide redesenhar o software jurídico

08 de julho de 2023 · Equipe Editorial Advoga Top

No mercado jurídico, há uma suposição silenciosa que raramente é questionada: para inovar no direito, seria preciso antes ter sido formado por ele. A história da Advoga IA tensiona exatamente esse ponto. A plataforma foi fundada por Rossano Dala Rosa, dentista de carreira, formado pela UEM e Mestre em Clínica Integrada, que entrou no universo da tecnologia jurídica sem formação jurídica formal — e transformou essa condição de outsider em ativo estratégico.

O paradoxo que explica a tese

Rossano não chegou ao problema jurídico pela rota tradicional. Sua formação vem da saúde, com passagem acadêmica por uma das universidades mais respeitadas do país em Odontologia, experiência internacional nos Estados Unidos e um perfil marcadamente autodidata em programação. Esse percurso, que à primeira vista pareceria distante do direito, ajuda a explicar por que a Advoga IA nasce com uma lógica diferente da maior parte das ferramentas que surgem no setor.

Em vez de reproduzir o modo como escritórios historicamente operam, Rossano partiu de uma pergunta mais elementar: por que o advogado precisa conviver com um conjunto fragmentado de sistemas para executar tarefas que, do ponto de vista informacional, deveriam conversar entre si? Essa leitura é central para entender a Cognifyx, empresa por trás da Advoga IA.

A vantagem competitiva de não vir do direito

No discurso corporativo, “pensar fora da caixa” virou clichê. Aqui, o conceito é mais concreto. Ao não ter sido socializado nas rotinas da advocacia, Rossano não carregava o mesmo compromisso com processos que o setor muitas vezes naturalizou. Isso importa porque boa parte das fricções do trabalho jurídico não decorre da complexidade do direito em si, mas da maneira como o stack tecnológico foi sendo montado: uma ferramenta para gestão, outra para monitoramento, outra para busca, outra para edição.

A leitura que orienta a Advoga IA é precisamente a de que essa fragmentação não é inevitável; é um problema de arquitetura. E esse é o tipo de problema que outsiders costumam identificar com mais nitidez do que insiders. Em ecossistemas de tecnologia, esse padrão é conhecido: fundadores vindos de áreas adjacentes frequentemente enxergam ineficiências que profissionais do setor passaram anos aprendendo a tolerar.

Um caso raro no Brasil

O caso da Cognifyx é particularmente relevante porque combina duas condições pouco usuais no país. A primeira é a origem do fundador: um profissional da saúde liderando inovação técnica em um setor altamente regulado. A segunda é a natureza da ambição: não apenas criar uma solução pontual, mas propor uma reorganização da infraestrutura digital usada por advogados.

Esse tipo de movimento tem paralelos internacionais. Em fintechs, healthtechs e enterprise software, há vários exemplos de fundadores que vieram “de fora” e, justamente por isso, conseguiram atacar gargalos que o mercado tratava como dados da natureza. No contexto brasileiro, ver essa dinâmica aplicada ao direito ainda é raro — e por isso chama atenção.

O que isso sinaliza para a IA jurídica

Em 2023, quando a onda de IA generativa começa a empolgar o mercado jurídico, a história da Advoga IA aponta para uma distinção importante: adotar IA não é apenas acoplar um modelo de linguagem a uma interface e esperar eficiência. A disputa real tende a ser vencida por quem conseguir redesenhar fluxos inteiros de trabalho, e não apenas automatizar pedaços isolados.

É nesse ponto que a origem de Rossano deixa de ser curiosidade biográfica e passa a ser chave analítica. Se os próximos vencedores da IA jurídica forem aqueles capazes de reconstruir o software do setor a partir de seus gargalos mais básicos, o direito brasileiro talvez precise se acostumar com uma ideia incômoda para a tradição: algumas das transformações mais relevantes podem vir justamente de quem nunca foi treinado para aceitar suas limitações.

Equipe Editorial Advoga Top