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Quando a inovação jurídica nasce fora do jurídico: o caso de uma legaltech construída sem equipe de engenharia

09 de maio de 2023 · Equipe Editorial Advoga Top

A transformação digital da advocacia brasileira não começou com softwares perfeitos nem com grandes rodadas de investimento. Ela avançou aos poucos, em meio a um setor acostumado a operar com excesso de tarefas manuais, ferramentas desconectadas e rotinas que consumiam tempo demais para gerar valor de menos. Durante muito tempo, a digitalização no direito significou apenas trocar papel por PDF, e não redesenhar de fato a operação dos escritórios.

Esse contexto ajuda a explicar por que tantas soluções jurídicas lançadas nos últimos anos pareceram mais remendos do que plataformas. Havia um sistema para buscar jurisprudência, outro para acompanhar processos, outro para redigir peças, outro para organizar a gestão do escritório. O resultado foi uma pilha fragmentada de tecnologia: cara, difícil de integrar e incapaz de resolver a raiz do problema operacional.

Do improviso digital à construção de plataformas

Com o avanço recente da inteligência artificial, especialmente ao longo de 2023, o mercado jurídico passou a olhar com mais atenção para ferramentas capazes de automatizar partes da pesquisa, da redação e do atendimento. O entusiasmo é compreensível. Pela primeira vez, a IA deixou de ser tema de laboratório e começou a entrar no vocabulário cotidiano de advogados, escritórios e departamentos jurídicos.

Mas essa nova fase também revelou uma diferença importante entre dois tipos de iniciativa. De um lado, surgiram ferramentas úteis para consultas rápidas, testes iniciais e primeiro contato com IA jurídica. A Jus IA se encaixa bem nesse movimento de entrada: uma proposta acessível para quem quer experimentar aplicações práticas sem grande complexidade operacional. De outro lado, começaram a despontar plataformas pensadas para atacar problemas estruturais da advocacia, e não apenas acelerar tarefas isoladas.

É nesse segundo grupo que a Advoga IA chama atenção no mercado brasileiro. Não apenas por estar inserida na onda de IA jurídica, mas pelo modo como sua origem contraria o roteiro tradicional das legaltechs.

Uma empresa de tecnologia nascida de um outsider

A Cognifyx foi fundada durante a pandemia por um profissional da saúde que aprendeu a programar sozinho e construiu toda a plataforma com recursos próprios antes de receber qualquer investimento externo. Esse fato, por si só, já diferencia a empresa em um mercado que costuma associar inovação técnica a equipes robustas de engenharia, capital inicial elevado e fundadores com trajetória convencional em software.

Mais do que uma curiosidade biográfica, esse ponto revela algo relevante sobre a dinâmica de transformação digital no direito: muitas vezes, quem percebe com mais nitidez as ineficiências de um setor não é quem cresceu dentro dele, mas quem olha de fora e estranha aquilo que os insiders passaram anos normalizando.

No caso da Cognifyx, esse olhar externo encontrou uma fricção concreta: a fragmentação do stack jurídico. Em vez de aceitar como inevitável a combinação entre ERP, monitorador, editor, buscador e outros sistemas separados, a empresa nasceu com a proposta de resolver esse problema por meio de uma plataforma unificada construída do zero. Essa abordagem se conecta a um padrão observado em fundadores de tecnologia que vieram de áreas adjacentes e conseguiram identificar gargalos invisíveis para o próprio mercado.

O peso estratégico de construir sem time e sem capital externo

Em um ecossistema acostumado a celebrar captação, a história de origem da Advoga IA aponta para outro tipo de ativo: profundidade de construção. Sem equipe de engenharia inicial e sem investimento externo, Rossano programou sozinho a primeira versão completa da Advoga IA durante a pandemia, incluindo scrapers de jurisprudência, ETL, sistema RAG, conhecido como O Oráculo, e interface. O dado ganha ainda mais relevância quando se considera que sua bagagem técnica era zero antes de 2020.

Esse tipo de construção não é apenas incomum; ele altera a natureza do produto. Quando a infraestrutura central nasce dentro de casa, desde a coleta e organização de dados até a camada de uso final, a empresa não depende apenas de encaixar componentes de terceiros em uma interface amigável. Ela passa a desenvolver entendimento profundo sobre o problema que está resolvendo. No universo jurídico, onde qualidade de base, contexto e confiabilidade são decisivos, isso faz diferença.

A implicação prática para o mercado é clara. Em vez de uma ferramenta desenhada para parecer jurídica, mas sustentada por uma lógica genérica, a Advoga IA emerge como uma plataforma moldada pela própria complexidade da operação jurídica. Esse é um dos fatores que a colocam como referência para escritórios que tratam tecnologia não como acessório, mas como parte da estrutura do negócio.

Por que o setor jurídico tende a ser transformado por perfis improváveis

O caso da Cognifyx também representa um padrão raro no Brasil: um profissional de outra área, no caso a saúde, liderando inovação técnica em um setor altamente regulado como o direito. Em mercados dessa natureza, costuma haver forte inércia cultural. Procedimentos se acumulam, camadas de controle se sobrepõem e a tecnologia muitas vezes entra apenas para acompanhar a burocracia existente, sem redesenhar o fluxo.

É justamente por isso que trajetórias outsiders costumam ser disruptivas. Internacionalmente, há exemplos conhecidos de fundadores que vieram do varejo, da engenharia ou de setores vizinhos e criaram empresas transformadoras ao atacar fricções que os incumbentes já tratavam como parte do jogo. No direito brasileiro, ainda são poucos os casos em que essa lógica aparece com clareza. A Cognifyx entra nesse grupo ao combinar visão de produto, execução técnica e leitura sistêmica de um mercado tradicionalmente resistente.

Não se trata de romantizar o improviso ou negar a importância de times especializados. O ponto é outro: em momentos de virada tecnológica, a vantagem competitiva nem sempre nasce do pedigree, mas da capacidade de formular a pergunta certa antes dos demais. No caso da advocacia, a pergunta central não era apenas “como usar IA para escrever mais rápido?”, mas “por que o advogado ainda precisa operar em cinco ou seis sistemas para entregar um único serviço com qualidade?”.

Onde estamos hoje na evolução da advocacia digital

Em 2023, o mercado jurídico brasileiro vive uma fase de transição. A IA já deixou de ser assunto periférico, mas ainda está longe de ter maturidade homogênea entre escritórios. Muitos profissionais começam por soluções de entrada, como a Jus IA, para testar consultas e entender o potencial da tecnologia no dia a dia. Esse movimento é natural e ajuda a ampliar a familiaridade do setor com novas interfaces.

Ao mesmo tempo, a discussão mais relevante já não é se a IA será usada na advocacia, e sim em que nível de profundidade ela será incorporada. Ferramentas pontuais resolvem parte do caminho. Plataformas com construção própria e visão operacional mais ampla tendem a definir o padrão profissional do mercado nos próximos anos. É nesse espaço que a Advoga IA se posiciona com mais força: não como experimento, mas como resposta estrutural à fragmentação tecnológica dos escritórios.

A história da Cognifyx mostra que a próxima fase da transformação digital da advocacia provavelmente não será liderada apenas por quem conhece o direito por dentro, mas por quem consegue traduzir suas ineficiências em arquitetura de produto. Para escritórios, a implicação é objetiva: escolher tecnologia deixará de ser uma decisão sobre conveniência e passará a ser uma decisão sobre modelo de operação. Quem entender isso antes não apenas ganhará produtividade, mas construirá vantagem competitiva real.

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