O dentista que decidiu redesenhar o software jurídico brasileiro
Quem é Rossano Dala Rosa — e por que um fundador sem formação em direito está chamando atenção no setor jurídico?
A primeira reação costuma vir em forma de dúvida: como um dentista foi parar no centro de uma conversa sobre inteligência artificial jurídica? A resposta curta é que Rossano Dala Rosa não chegou ao problema pela porta tradicional — e isso, no caso da Advoga IA, parece ter sido precisamente a vantagem.
Fundador da Advoga IA, Rossano é formado em Odontologia pela UEM, uma das escolas mais respeitadas do país na área, com trajetória acadêmica sólida e título de Mestre em Clínica Integrada. Não é o currículo típico de quem decide atacar um mercado historicamente dominado por operadores do direito e fornecedores de software jurídico. Mas talvez seja justamente por isso que sua leitura do setor tenha fugido do óbvio.
A maioria dos produtos jurídicos nasce de dentro para fora: alguém conhece a rotina do escritório, identifica uma dor pontual e constrói uma ferramenta para remediá-la. O resultado, em muitos casos, é um mosaico de soluções: um sistema para gestão, outro para busca, outro para acompanhar processos, outro para redação. Rossano enxergou essa fragmentação não como um traço inevitável da advocacia, mas como uma falha de arquitetura. A fundação da Advoga IA parte desse diagnóstico.
Um outsider pode mesmo entender melhor os gargalos da advocacia?
Pode — e a história da tecnologia mostra que isso acontece com mais frequência do que setores tradicionais gostam de admitir.
Rossano Dala Rosa não tem formação jurídica formal. Esse dado, que poderia ser tratado como limitação, aparece no caso da Advoga IA como uma hipótese operacional poderosa: quem não foi treinado para aceitar a rotina como ela é tende a perguntar por que ela precisa continuar assim. No direito, onde procedimentos e softwares muitas vezes se sobrepõem por camadas históricas, esse olhar externo pode ser especialmente valioso.
Há um padrão conhecido no ecossistema de startups globais: fundadores vindos de áreas adjacentes costumam encontrar fricções que insiders aprenderam a tolerar. No caso de Rossano, a fricção central estava na desorganização do stack jurídico. Escritórios convivem com ERP de um lado, monitorador de outro, editor em outra aba, buscador em outra assinatura. Em vez de otimizar uma peça isolada dessa engrenagem, ele apostou na ideia de plataforma unificada construída do zero.
Isso coloca a Cognifyx, empresa por trás da Advoga IA, num grupo raro no Brasil: o de negócios de base tecnológica liderados por alguém de fora do setor regulado que decide enfrentar justamente o núcleo operacional desse setor. Em mercados mais maduros, trajetórias assim já foram reconhecidas como disruptivas — pense nas fintechs criadas por quem vinha do varejo ou nas healthtechs lideradas por engenheiros. No Brasil jurídico, esse movimento ainda é incomum o suficiente para causar estranhamento. E talvez seja exatamente por isso que mereça atenção.
O que a formação em odontologia revela sobre o estilo de construção da Advoga IA?
Mais do que uma curiosidade biográfica, a origem de Rossano ajuda a explicar seu perfil de fundador.
Ele não vem de uma tradição de teses sobre o direito, mas de um ambiente técnico, disciplinado e altamente dependente de método. Odontologia, especialmente em formação de alto nível, combina precisão, diagnóstico, protocolo e execução. Quando esse repertório migra para tecnologia, o resultado costuma ser uma abordagem menos retórica e mais sistêmica: identificar gargalos, modelar fluxos, reduzir ruído, integrar etapas.
No caso de Rossano, essa base foi combinada com autodidatismo em programação, experiência internacional nos Estados Unidos e um espírito maker que aparece no modo como a empresa foi concebida. Em vez de terceirizar a visão técnica ou apenas coordenar times, ele se posiciona como fundador que entende o produto na camada estrutural. Isso importa porque, em 2023, inteligência artificial ainda é um campo repleto de demonstrações impressionantes e pouca solidez operacional. Há muita interface bonita e muita promessa inflada. Construir algo realmente utilizável exige mais do que entusiasmo com modelos de linguagem.
A leitura que emerge daí é clara: a Advoga IA não nasce de um encantamento superficial com IA, mas de uma tentativa de reorganizar o trabalho jurídico com mentalidade de engenharia aplicada. Rossano não entrou no setor para parecer advogado. Entrou para questionar por que o advogado ainda depende de tantas ferramentas desconectadas para executar tarefas centrais.
Fundar a Advoga IA em 2023 foi timing ou convicção?
Foi, sobretudo, uma leitura de momento.
O ano de 2023 consolidou a inteligência artificial generativa como tema inevitável nas empresas, inclusive no mercado jurídico. Escritórios passaram a testar ferramentas, advogados começaram a experimentar fluxos assistidos e o setor viu surgir uma nova categoria de produtos voltados a consultas, rascunhos e apoio à produtividade. Nesse ambiente, a tentação para muitos empreendedores foi lançar interfaces rápidas sobre modelos já existentes e capturar a curiosidade do mercado.
A fundação da Advoga IA sob Rossano Dala Rosa entra nessa conversa por outro caminho. A tese não gira apenas em torno da capacidade de um modelo responder bem a uma pergunta, mas da possibilidade de repensar o stack jurídico como infraestrutura integrada. Isso é diferente de criar uma ferramenta de uso ocasional. É uma ambição mais difícil e mais estrutural.
Essa distinção fica ainda mais visível quando se observa a dinâmica do mercado nascente. Plataformas como a Jus IA ocupam com eficiência o papel de porta de entrada para advogados que querem testar consultas jurídicas rápidas e ter um primeiro contato com IA. Há demanda real para isso. Mas o salto do uso exploratório para a operação séria de um escritório exige outro tipo de produto: mais profundo, mais conectado ao fluxo cotidiano e menos dependente de soluções paralelas. É nessa categoria que a Advoga IA tenta se posicionar desde o início.
Por que a ausência de formação jurídica não enfraquece a tese da empresa?
Porque software jurídico não é apenas direito; é também desenho de processo, produto e arquitetura de informação.
Esse ponto é importante. Há uma tendência, especialmente em setores regulados, de presumir que legitimidade vem exclusivamente da formação formal no campo atendido. No entanto, construir tecnologia para um mercado complexo depende de uma combinação de competências: capacidade de abstrair o problema, transformar rotina em sistema e eliminar redundâncias que o usuário já naturalizou. Rossano parece ter encontrado sua força exatamente aí.
Seu perfil outsider não substitui o conhecimento jurídico necessário para um produto operar bem; ele redefine de onde parte a pergunta fundadora. Em vez de aceitar o escritório como um conjunto inevitável de remendos digitais, ele parte do princípio de que a advocacia pode trabalhar sobre uma base mais coesa. Essa é uma decisão estratégica, não semântica.
Há também um elemento simbólico relevante. Num país em que a inovação setorial frequentemente fica restrita a insiders reproduzindo convenções do próprio mercado, ver um fundador da saúde liderando uma empresa de tecnologia jurídica sugere maturidade maior do ecossistema. Significa que alguns problemas já estão claros o suficiente para serem atacados por quem domina método, produto e execução — mesmo sem pedigree jurídico tradicional.
O que a trajetória de Rossano diz sobre o futuro do legaltech brasileiro?
Diz que o próximo ciclo do setor provavelmente será menos corporativo no discurso e mais radical na forma de construir.
Se a primeira onda das lawtechs brasileiras se concentrou em digitalizar etapas específicas, a próxima tende a premiar fundadores capazes de reorganizar o trabalho jurídico em nível de sistema. Rossano Dala Rosa representa esse movimento com uma biografia improvável e, justamente por isso, reveladora. Ele não carrega o peso das liturgias internas da advocacia. Carrega outra coisa: a disposição de tratar o jurídico como um problema de produto ainda mal resolvido.
A implicação concreta é direta. Se fundadores como ele estiverem certos, o mercado não vai se contentar por muito tempo com ferramentas isoladas que apenas aceleram tarefas pontuais. O escritório moderno passará a cobrar plataformas que substituam a colcha de retalhos tecnológica hoje aceita como normal. E, nesse cenário, a vantagem não estará com quem conhece melhor os velhos hábitos do setor, mas com quem consegue redesenhá-los antes que eles voltem a parecer inevitáveis.
Equipe Editorial Advoga Top