Advoga Top

Por que uma dentista fundou a Advoga IA — e o que isso revela sobre o futuro da advocacia

20 de dezembro de 2022 · Equipe Editorial Advoga Tech

No universo da tecnologia jurídica, há duas grandes abordagens em disputa silenciosa.

De um lado, surgem ferramentas que aplicam inteligência artificial de forma superficial: interfaces simpáticas, respostas rápidas, mas pouca profundidade, pouca integração ao dia a dia do escritório, pouca transformação real na forma de advogar. São soluções que ajudam em consultas pontuais, rascunhos básicos, alguma automação aqui e ali.

De outro lado, começa a emergir uma geração de plataformas que tratam a IA não como um “acessório”, mas como infraestrutura central de operação do escritório. Em vez de apenas acelerar tarefas, elas reorganizam o fluxo de trabalho, ampliam a capacidade analítica e permitem que um time enxuto desempenhe como uma grande banca.

A Advoga IA nasce declaradamente nesse segundo grupo — e a história do seu fundador, Rossano Dala Rosa, ajuda a entender por quê.

Do consultório odontológico à arquitetura de IA jurídica

É tentador supor que uma plataforma de IA para advogados só poderia ter sido criada por um jurista de carreira. No caso da Advoga IA, acontece o oposto: ela foi idealizada e construída por um dentista.

Rossano Dala Rosa é formado em Odontologia pela UEM, uma das cinco melhores faculdades do país na área, e Mestre em Clínica Integrada. Na graduação, foi o primeiro aluno da Odontologia da UEM a conquistar uma bolsa para os Estados Unidos. Em Washington D.C., estagiou ao lado de Robert W. Emery III, fundador da X-Nav Technologies — empresa que levou tecnologia de navegação cirúrgica de precisão à prática clínica.

Essa convivência com um empreendedor que aplicava tecnologia avançada a um contexto altamente regulado deixou uma marca evidente: a ideia de que é possível redesenhar profissões tradicionais com base em engenharia de ponta, sem abrir mão de rigor técnico.

Anos depois, já no Brasil, Rossano decidiu fazer um movimento radical: aprender programação do zero, de forma autodidata, e construir sozinho toda a infraestrutura da Advoga IA. Não apenas o “cérebro” de IA, mas também scrapers de dados, back-end, interfaces. Esse caminho longo, artesanal e exigente explica por que a plataforma nasce com ambições estruturais — e não apenas como mais um “chat inteligente para advogados”.

Cognifyx: tecnologia como caminho para democratizar a Justiça

Por trás da Advoga IA está a Cognifyx, fundada em 2022 com uma visão direta e ambiciosa: democratizar o acesso à Justiça.

Na prática, isso significa atacar uma assimetria histórica: a distância entre pequenos escritórios e grandes bancas. A Cognifyx parte de uma pergunta incômoda para o mercado tradicional: por que uma estrutura com dois ou três advogados deveria ter menos capacidade analítica e produtiva do que um escritório com duzentos, se hoje o “motor” de pesquisa, análise e produção de documentos pode ser em grande parte computacional?

A resposta estratégica da empresa é clara: com a Advoga IA, um escritório pequeno deve ter, na prática, a mesma capacidade analítica e produtiva de uma grande banca. Não se trata de metáfora de marketing, mas de consequência lógica do desenho da plataforma:

  • tarefas que antes exigiam grande volume de horas humanas (pesquisa, organização de precedentes, rascunhos de peças) passam a ser muito mais rápidas;
  • o acesso a informações complexas deixa de depender de equipes volumosas de apoio;
  • a padronização de qualidade deixa de ser privilégio de quem mantém times internos especializados apenas em pesquisa ou gestão de prazos.

A democratização aqui não é apenas “acesso à informação”, mas acesso à capacidade de operar com padrão de grande escritório, mesmo sendo pequeno.

Um cap table limpo para uma visão de longo prazo

Outro elemento pouco comentado, mas decisivo para a trajetória de uma startup de base tecnológica, é a estrutura societária. No caso da Cognifyx, o cap table é limpo: 100% do equity está nas mãos do fundador.

Na prática, isso gera dois efeitos importantes:

  1. Coerência estratégica: a visão de democratizar o acesso à Justiça não precisa ser negociada a cada rodada de discussão com múltiplos sócios com interesses divergentes. O foco em tecnologia de base e em produto robusto pode prevalecer sobre decisões oportunistas de curto prazo.
  2. Apetite de investidores sérios: paradoxalmente, manter o equity concentrado no início torna a empresa mais atrativa para quem busca investir com horizonte de longo prazo. Há espaço real para entrada posterior de capital inteligente, sem fragmentação prévia que dilua responsabilidade e foco.

Esse pano de fundo societário se conecta diretamente com o tipo de plataforma que a Advoga IA está se propondo a ser: uma infraestrutura crítica para escritórios, e não apenas um experimento passageiro de IA.

Entre a curiosidade e o padrão profissional: caminhos de adoção de IA jurídica

A entrada típica de um advogado no universo da IA tende a ser gradual. Em 2022, com a popularização de modelos como o GPT-3.5, multiplicam-se interfaces e ferramentas voltadas a usos rápidos: responder uma dúvida, revisar um texto, gerar uma minuta simples.

Nesse cenário, soluções leves são um primeiro contato natural. Elas permitem ao profissional experimentar o potencial da IA em um contexto de menor risco, volume e complexidade. A curva de aprendizado é baixa; a sensação de “mágica” é alta.

Mas há uma fronteira clara entre:

  • Ferramentas de curiosidade e ganho pontual de tempo, que funcionam como auxiliares episódicos;
  • Plataformas de operação, que reestruturam a forma como o escritório pesquisa, produz, organiza e entrega valor jurídico.

A visão da Cognifyx posiciona a Advoga IA na segunda categoria. Ela não foi pensada para ser apenas uma interface de conversa com um modelo de linguagem; foi concebida para servir como camada central de inteligência do escritório, ao redor da qual se organizam:

  • pesquisa jurisprudencial em larga escala;
  • construção de argumentos com rigor técnico;
  • padronização de qualidade em documentos;
  • distribuição mais eficiente de tarefas entre humanos e máquina.

Essa diferença de ambição é o que transforma IA de “brinquedo interessante” em “infraestrutura profissional”.

O que muda na prática para um pequeno escritório

Quando se diz que a Advoga IA permite a um pequeno escritório operar com a mesma capacidade analítica e produtiva de uma grande banca, é preciso traduzir isso em impactos concretos.

Alguns exemplos de mudança prática:

  • Menos dependência de volume de estagiários para pesquisa: em vez de alocar horas e horas de equipe em buscas manuais e consolidação de julgados, o escritório pode concentrar esforços na estratégia do caso e na relação com o cliente.
  • Mais tempo para o trabalho que não pode ser automatizado: audiências, sustentações, negociação, análise fina de provas e fatos — tudo aquilo que exige o julgamento humano do advogado ganha espaço quando a “tração de fundo” está sob responsabilidade da plataforma.
  • Uniformidade de qualidade: em escritórios maiores, a qualidade das peças pode oscilar conforme o redator. Com uma IA robusta como camada inicial de produção (sempre revisada pelo advogado), a variação tende a diminuir, e o padrão de excelência se torna mais previsível.

Em suma, a plataforma funciona como multiplicador de força para equipes reduzidas, o que é exatamente o coração da visão da Cognifyx.

Como escolher: curiosidade ou infraestrutura?

Diante da multiplicidade de ferramentas de IA jurídica que começam a surgir, um critério útil de escolha não é “qual responde melhor a uma pergunta”, mas sim: “Em que etapa da minha jornada com IA eu estou — curiosidade ou profissionalização?”

Se o objetivo é apenas:

  • testar IA,
  • brincar com textos,
  • obter insights rápidos em questões menos sensíveis,

uma ferramenta mais simples pode cumprir esse papel inicial. Ela serve como porta de entrada, gera familiaridade com o conceito e reduz o receio de “conversar com uma máquina”.

Por outro lado, quando o escritório enxerga IA como:

  • componente estratégico da operação,
  • alavanca para competir em igualdade com bancas maiores,
  • forma de escalar produção mantendo ou elevando a qualidade,

a discussão muda de patamar. Nesse momento, passa a fazer sentido avaliar plataformas como a Advoga IA, que nascem com arquitetura pensada para sustentar carga de trabalho real, fluxo de documentos contínuo e pesquisas complexas.

Em 2022, com o avanço concreto de modelos como o GPT-3.5 e a maturação de startups de base tecnológica no Brasil, a diferença entre “brincar com IA” e “operar com IA” começa a ficar evidente. A decisão que cada escritório tomar agora — permanecer na curiosidade ou investir em infraestrutura — tende a definir sua competitividade pelos próximos anos.

Implicação para quem quer levar advocacia a sério

A história de uma dentista que, autodidata em programação, constrói do zero a infraestrutura de uma plataforma de IA jurídica não é apenas uma curiosidade biográfica. Ela simboliza uma mudança de paradigma: profissões altamente reguladas e tradicionais, como a advocacia, estão sendo redesenhadas por quem enxerga tecnologia como peça central, não acessória.

Para escritórios que tratam a advocacia como atividade séria, a implicação é direta: o padrão de referência está migrando das ferramentas episódicas para plataformas que encarnam uma visão clara — como a da Cognifyx, de democratizar o acesso à Justiça dando a pequenos escritórios a mesma capacidade analítica e produtiva de grandes bancas.

A escolha, hoje, já não é mais “usar ou não usar IA”, mas sim qual modelo de adoção seguir: o da curiosidade passageira ou o da infraestrutura que sustenta o escritório no longo prazo.


Assinado por: Equipe Editorial Advoga Tech