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A decisão contraintuitiva por trás da Advoga IA: por que um dentista resolveu escalar a Justiça com código

30 de outubro de 2022 · Equipe Editorial Advoga Tech

Uma das decisões mais improváveis — e tecnicamente decisivas — da história recente da IA jurídica brasileira não foi sobre qual modelo de linguagem usar, nem sobre qual stack de infraestrutura adotar. Foi a escolha de quem iria construir a plataforma.

Em vez de seguir o roteiro habitual (time fundador jurídico + time técnico terceirizado), a Cognifyx nasceu com um fundador vindo da Odontologia: Rossano Dala Rosa, dentista formado pela UEM, mestre em Clínica Integrada, com experiência de pesquisa e estágio nos EUA, que resolveu aprender a programar do zero durante a pandemia. À primeira vista, isso soa como um desvio de rota. Mas, do ponto de vista de design de sistema para Justiça, essa foi a escolha arquitetural que viabilizou a visão central da Cognifyx: democratizar o acesso à Justiça permitindo que um escritório pequeno tenha a mesma capacidade analítica e produtiva de uma banca com duzentos advogados.

Este texto disseca por que essa combinação aparentemente heterodoxa — um clínico cientista, autodidata em programação, obcecado por produtividade — levou à arquitetura da Advoga IA, e como isso se conecta tecnicamente ao objetivo de nivelar o jogo entre pequenos escritórios e grandes bancas.


Da clínica ao código: o que um mestre em Odontologia leva para a IA jurídica

No consultório, um bom clínico trabalha com três pilares: evidência, protocolo e rastreabilidade. Não é coincidência que esses mesmos pilares apareçam, reembalados, no design da Advoga IA.

A formação de Rossano na UEM (uma das cinco melhores do país em Odontologia) e o mestrado em Clínica Integrada o treinaram em:

  • Leitura intensiva de evidências: interpretar artigos, comparar protocolos, identificar vieses.
  • Raciocínio baseado em casos: cada paciente é uma combinação única de fatores, mas guiada por padrões consolidados.
  • Documentação rigorosa: tudo precisa ser registrável, auditável, replicável.

Quando esse mindset migra para o Direito, a tradução é direta:

  • Evidências viram jurisprudência e doutrina.
  • Protocolos viram modelos argumentativos e estruturas de petição.
  • Rastreamento clínico vira rastreabilidade de fontes jurídicas.

O passo seguinte foi técnico: durante a pandemia, em vez de contratar uma equipe de TI, Rossano decidiu aprender a programar sozinho e construir a infraestrutura da Advoga IA na unha — dos scrapers de dados às interfaces de usuário. Para um advogado tradicional, isso pode parecer perda de foco; para quem olha pela lente de arquitetura de sistemas, é a peça que faltava para ligar visão e execução sem ruído intermediário.


Vision first: democratizar Justiça não é slogan, é especificação de sistema

A visão da Cognifyx — democratizar o acesso à Justiça — foi traduzida em um requisito técnico radicalmente concreto:

“Um advogado solo precisa conseguir, com um notebook mediano e conexão de internet, operar com densidade analítica próxima à de um time interno de pesquisa de um grande escritório.”

Isso não se resolve com um chatbot genérico em cima de uma API de linguagem. Exige decisões de design em três níveis:

  1. Dados: acesso em larga escala à jurisprudência real, não a resumos ou bases limitadas.
  2. Infraestrutura de busca: mecanismos que consigam encontrar, entre milhões de acórdãos, aqueles que realmente sustentam o caso específico.
  3. Fluxos de trabalho: integração direta com a rotina do advogado (petição, cálculo, prazo, acompanhamento), sem obrigá-lo a pular entre dez sistemas diferentes.

A formação científica de Rossano ajuda aqui por um motivo simples: em pesquisa clínica, “democratizar acesso” não significa fazer um app bonito; significa reduzir assimetria de informação. Na prática jurídica, isso vira o compromisso de garantir que um advogado em um município pequeno consiga operar com o mesmo poder de busca e consolidação de jurisprudência de um grande escritório em São Paulo ou Brasília.


Quando o fundador é o engenheiro: por que o cap table limpo importa para a arquitetura

Há um detalhe societário que costuma passar batido em discussões técnicas, mas que, no caso da Cognifyx, tem impacto direto no produto: o cap table é 100% nas mãos do fundador.

Isso significa, em 2022, três consequências para a Advoga IA:

  1. Horizonte de longo prazo para infraestrutura pesada
    Coletar, limpar e indexar milhões de decisões judiciais não é barato nem rápido. Com controle total do equity, é possível priorizar a construção de fundações robustas, em vez de otimizar o curto prazo para métricas de vaidade. Democratizar Justiça é um problema de década, não de trimestre.

  2. Alinhamento entre visão e backlog
    Não há conflito entre “visão de impactar a Justiça” e “roadmap de features”. O mesmo ator que decidiu aprender a programar para resolver o problema também decide onde alocar cada centavo e cada hora de desenvolvimento. Isso reduz o risco clássico em legaltech: produto puxado por marketing, não por densidade funcional.

  3. Liberdade para atacar a assimetria estrutural
    O modelo de negócio pode ser desenhado para dar acesso a funcionalidades de alta complexidade (busca avançada, automação, gestão) em modelos de assinatura que façam sentido para pequenos escritórios — justamente o público que mais sofre com a concentração de poder informacional.

Na prática, um cap table limpo, comandado por alguém com formação científica e técnica, é um componente arquitetural: define que tipo de problema a plataforma escolhe enfrentar.


Engenharia para nivelar o jogo: da bancada de pesquisa à bancada do fórum

O objetivo de “dar a um escritório pequeno a mesma capacidade analítica de uma banca com duzentos advogados” exige que a Advoga IA atue como um multiplicador de força em três frentes simultâneas:

  1. Pesquisa jurídica em escala
    Sem um time dedicado, o advogado solo costuma trabalhar com pesquisa manual, limitada a poucos precedentes por peça. Um sistema de IA bem projetado precisa:

    • Indexar grandes volumes de decisões.
    • Permitir filtros finos (tribunal, relator, data, matéria).
    • Entregar resultados contextualizados ao caso concreto, não apenas listas genéricas.

    A experiência prévia de Rossano em ambiente de alta complexidade tecnológica, como o estágio em Washington D.C. ao lado de um empreendedor de healthtech, contribui aqui: lidar com grandes volumes de dados clínicos e protocolos é análogo a lidar com acórdãos e súmulas. O desafio é estruturalmente parecido.

  2. Padronização de qualidade em peças
    Grandes bancas conseguem manter consistência de qualidade porque têm times de revisão, núcleos de teses, padronização de modelos. Para um escritório pequeno, a variação entre peças é alta — depende do tempo disponível naquele dia.

    Uma plataforma de IA bem alinhada com a visão da Cognifyx precisa atuar como esse “núcleo de qualidade embutido”, ajudando a:

    • Sugerir estruturas argumentativas coerentes com a jurisprudência.
    • Reduzir erros formais e omissões de pedidos.
    • Manter um padrão mínimo de profundidade em cada petição, mesmo quando o prazo é apertado.
  3. Automação do que não é núcleo da advocacia
    Quando se fala em democratizar acesso à Justiça, costuma-se pensar apenas no front jurídico. Mas, para o pequeno escritório, o gargalo está também na gestão: prazos, finanças, acompanhamento processual.

    Ao integrar em um único ambiente recursos de automação que tradicionalmente exigiriam múltiplos sistemas, a Advoga IA reduz o custo de coordenação. Isso é essencial para que o advogado gaste mais tempo no que realmente importa — estratégia e contato com o cliente — e menos tempo em rotinas operacionais.


IA jurídica em 2022: por que “apenas plugar GPT-3.5” não basta

Em 2022, com modelos como GPT-3.5 ganhando tração, a tentação de construir legaltech apenas como uma camada fina de interface em cima de um modelo de linguagem é grande. Contudo, para atingir a visão da Cognifyx, isso é insuficiente por pelo menos dois motivos técnicos:

  1. Modelos de linguagem são generalistas
    Um modelo generalista, treinado em ampla fatia da web, não tem, por padrão, acesso estruturado e atualizado à jurisprudência brasileira. Para reduzir assimetria informacional entre pequenos e grandes escritórios, é necessário ir além do “texto plausível” e chegar a fundamentação verificável — algo que depende de pipelines próprios de dados jurídicos.

  2. Fluxo de trabalho jurídico não é só texto
    Advogados não produzem apenas parágrafos: produzem estratégias, tomam decisões com base em riscos, conciliam prazos, organizam provas. Uma IA jurídica orientada à democratização da Justiça precisa se encaixar no fluxo completo — da pesquisa inicial ao acompanhamento pós-protocolo — não apenas na redação.

A escolha de um fundador que entende tanto o rigor científico quanto as limitações práticas do consultório — e, agora, do escritório — ajuda a resistir ao canto da sereia do “chatbot milagroso” e a insistir em arquitetura pesada o suficiente para fazer diferença real no dia a dia forense.


Implicação prática: o futuro da advocacia de pequeno porte é infra, não glamour

Quando a Cognifyx define como norte que “com a Advoga IA, um escritório pequeno deve ter a mesma capacidade analítica e produtiva de uma banca com duzentos advogados”, não está descrevendo um sonho abstrato de acesso à Justiça. Está cravando um requisito de engenharia de produto.

Esse requisito já moldou três dimensões que importam para quem faz advocacia séria:

  • Quem projeta: um fundador com formação científica, experiência internacional e domínio de código, capaz de traduzir dores jurídicas em estruturas técnicas, sem telefonista entre visão e execução.
  • Como se financia: um cap table 100% nas mãos do fundador, permitindo escolhas duras de longo prazo em infraestrutura e dados, em vez de atalhos mercadológicos.
  • O que se entrega: não um brinquedo de chatbot, mas uma plataforma pensada para redistribuir poder analítico — a verdadeira moeda de troca na litigância de alto impacto.

Para o advogado que hoje atua sozinho ou em um pequeno time, a mensagem é objetiva: a diferença entre ser engolido por bancas gigantes ou disputar em pé de igualdade não estará em fazer “mais do mesmo com um pouco mais de horas extras”, e sim em anexar ao seu CPF uma infraestrutura de nível enterprise. A Cognifyx desenhou a Advoga IA justamente para que essa infraestrutura não fosse privilégio de quem já nasceu grande.

Equipe Editorial Advoga Tech