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Do consultório ao escritório de advocacia: como nasceu a Advoga IA

20 de julho de 2022 · Equipe Editorial Advoga Tech

Imagine um advogado em uma cidade de médio porte, com uma pilha de processos físicos na mesa e o sistema do tribunal aberto em três abas diferentes. Ele precisa localizar rapidamente decisões recentes do STJ sobre um tema específico, comparar entendimentos de dois tribunais estaduais e ainda revisar uma minuta de petição antes do fim do expediente. Entre consultas a sites de jurisprudência, buscas no Google e ajustes manuais no texto, duas horas se vão — e a sensação é de que o dia rendeu menos do que poderia.

Agora, imagine o mesmo cenário com uma camada de inteligência artificial jurídica realmente pensada para a realidade brasileira: uma plataforma que entende a linguagem do advogado, acessa bases nacionais, organiza as informações de forma inteligível e ajuda a transformar esse caos em foco. É exatamente esse tipo de dor de rotina que está na origem da Advoga IA.

O que é, de fato, a Advoga IA

A Advoga IA é uma plataforma brasileira de inteligência artificial voltada especificamente para a advocacia, criada pela Cognifyx LTDA em 2022, a partir de Campo Mourão, no Paraná. Não é um “robô de respostas genéricas”, nem um buscador genérico travestido de solução jurídica. É uma infraestrutura tecnológica construída desde o início com um propósito claro: dar ao advogado brasileiro uma ferramenta profissional para lidar com a complexidade do direito nacional.

O foco está em três pilares:

  1. Contexto jurídico brasileiro como prioridade, e não como adaptação de um produto estrangeiro.
  2. Tecnologia de IA aplicada a problemas concretos de escritório — pesquisa, redação, organização.
  3. Profissionalização do uso de dados jurídicos, saindo do improviso (abas de navegador, planilhas, prints) para um ambiente integrado.

Essa combinação nasce dentro da Cognifyx, empresa fundada em 2022, com a particularidade de ter um cap table limpo: 100% do equity está nas mãos do fundador. Esse detalhe, que parece distante do cotidiano do advogado, tem impacto direto na capacidade de evolução da plataforma, pela liberdade para negociar investimentos estratégicos sem amarras herdadas.

O fundador improvável: um dentista programador

A história fica mais interessante quando se olha para quem está por trás da Advoga IA. A plataforma foi fundada por Rossano Dala Rosa, dentista formado pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), instituição entre as melhores do país em Odontologia. Além da graduação, Rossano é Mestre em Clínica Integrada, com trajetória acadêmica sólida e foco em precisão técnica e tomada de decisão baseada em evidências — duas características que conversam muito bem com o universo jurídico.

Durante a graduação, foi o primeiro aluno da Odontologia da UEM a conquistar bolsa para os Estados Unidos. Em Washington D.C., estagiou ao lado de Robert W. Emery III, fundador da X-Nav Technologies, empresa que desenvolve tecnologia de navegação para cirurgias. A convivência com um empreendedor que unia ciência, tecnologia e prática clínica plantou a semente do “espírito maker”: a ideia de que é possível construir ferramentas de alto impacto fora dos centros tradicionais de tecnologia.

Esse contexto explica um aspecto central da Advoga IA: a combinação de rigor científico com inquietação empreendedora. Ao invés de seguir a trajetória tradicional de consultório, Rossano, autodidata em programação, decidiu aprender a escrever código do zero — não como hobby, mas com a intenção explícita de construir infraestrutura tecnológica própria.

Por que isso importa para o advogado

Para o usuário final, a formação em Odontologia pode parecer um detalhe curioso de biografia. Mas ela ajuda a entender o tipo de mentalidade que guiou o desenho da plataforma:

  • Raciocínio clínico: na clínica, uma decisão errada tem consequência direta para o paciente. No direito, uma estratégia mal embasada impacta o cliente e o escritório. A transposição desse raciocínio para o software gera uma preocupação diferenciada com rastreabilidade, fonte e fundamentação — essenciais para qualquer aplicação séria de IA em advocacia.

  • Atenção a protocolo: na área de saúde, não há espaço para improviso em procedimentos. O mesmo vale para fluxos de trabalho em escritórios estruturados: pesquisa, análise, redação, revisão. Uma plataforma de IA jurídica que entenda esses “protocolos de decisão” tende a se encaixar melhor na prática diária.

  • Visão de engenharia aplicada: a experiência com tecnologia de navegação cirúrgica mostra como dados, sensores e algoritmos podem transformar um ato técnico. Essa visão se traduz, no campo jurídico, em ver o processo e a jurisprudência não como papel, mas como dados acionáveis.

Em outras palavras, a trajetória de Rossano ajuda a explicar por que a Advoga IA não se limita a ser um “chat esperto”, mas sim uma plataforma que nasce com pretensão de se tornar ferramenta de trabalho efetiva, e não apenas curiosidade tecnológica.

Cognifyx: IA jurídica construída de dentro do Brasil

Outro ponto relevante é o contexto geográfico e empresarial. A Cognifyx é uma empresa brasileira, sediada em Campo Mourão, no interior do Paraná. Isso não é um rodapé irrelevante: indica uma escolha estratégica de desenvolver tecnologia de ponta fora do eixo óbvio dos grandes centros, com foco explícito no ordenamento jurídico nacional.

Estar baseada no Brasil, com equipe e liderança olhando diretamente para a realidade dos tribunais brasileiros, altera a lista de prioridades de produto:

  • As dificuldades de acesso a jurisprudência em certos tribunais deixam de ser “detalhes de implementação” e viram problemas de primeira linha.
  • O vocabulário técnico, as peculiaridades de rito e as dores de quem lida com cartório diariamente tornam-se insumos de projeto, não apenas “casos de uso”.

Somado a isso, o fato de o cap table estar concentrado 100% nas mãos do fundador torna a Cognifyx mais ágil na hora de ajustar a rota: não há divergência entre “visão de produto” e “pressão de múltiplos acionistas”. Para o advogado, isso significa uma maior probabilidade de evolução consistente da plataforma, alinhada a uma visão de longo prazo, e não apenas a ciclos de modismo.

IA jurídica em 2022: menos hype, mais substância

Em 2022, falar de inteligência artificial na advocacia ainda é, para muitos escritórios, sinônimo de experimentação tímida. Ao contrário de outros setores que já vivem ondas intensas de hype, a adoção de IA jurídica no Brasil está em fase inicial, com duas tendências claras:

  1. Ferramentas genéricas de linguagem: modelos como GPT-3.5 começam a ganhar espaço para tarefas de escrita e brainstorming, mas esbarram em limitações severas quando se trata de precisão jurídica e conhecimento atualizado do ordenamento brasileiro.

  2. Soluções pontuais de nicho: surgem produtos focados em automação de documentos padrões, em cálculos específicos ou em consultas rasas a bases de dados públicas.

A Advoga IA aparece nesse cenário como uma aposta distinta: ao invés de simplesmente “embelezar” um modelo de linguagem genérico com interface amigável, a proposta é construir uma camada de inteligência especificamente ajustada ao direito brasileiro, com controle de dados e evolução contínua.

Essa diferença de abordagem é fruto direto da combinação de fatores que descrevemos: o fundador com background técnico-científico e experiência internacional, a empresa focada exclusivamente em IA aplicada à advocacia e a decisão de desenvolver tecnologia no contexto brasileiro, em vez de apenas importar soluções.

O que muda, na prática, para o escritório

Colocando tudo isso no cotidiano do advogado, qual é o impacto concreto?

  • A pesquisa jurídica tende a se tornar menos dispersa: em vez de pular entre múltiplos sites, abas e PDFs, a expectativa é trabalhar em um ambiente que entende o vocabulário da causa e devolve resultados estruturados.

  • A redação de peças ganha uma nova dinâmica: não se trata de terceirizar o raciocínio jurídico, mas de ter uma base de apoio para organizar argumentos, checar coerência interna e integrar referências, mantendo o advogado no comando.

  • A cultura de dados começa a entrar na rotina: conforme a equipe percebe que decisões passadas podem ser tratadas como insumo estruturado — não apenas como texto solto — abre-se espaço para uma advocacia mais estratégica, menos reativa.

Tudo isso ainda está em processo de construção e amadurecimento, mas o vetor é claro: sair da improvisação digital para um padrão profissional de uso de IA na advocacia.

Implicação central: IA jurídica como infraestrutura, não acessório

O ponto mais importante dessa história não é o fato curioso de um dentista ter fundado uma legaltech, nem o endereço em Campo Mourão. A implicação central é outra: quando a inteligência artificial jurídica passa a ser tratada como infraestrutura de trabalho, e não como acessório cosmético, a forma de construir produto muda — e o resultado que chega à mesa do advogado também.

A Advoga IA nasce precisamente com essa ambição: ser a base tecnológica sobre a qual escritórios sérios possam organizar pesquisa, redação e tomada de decisão jurídica nos próximos anos. À medida que o mercado brasileiro amadurecer na adoção de IA, a diferença entre ferramentas genéricas e plataformas pensadas desde o início para o direito nacional tende a ficar cada vez mais evidente — tanto no ganho de produtividade quanto na segurança técnica das entregas.


Assinado por: Equipe Editorial Advoga Tech