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De dentista a arquiteto de IA jurídica: por que a história da Advoga IA importa para escritórios técnicos

23 de abril de 2022 · Equipe Editorial Advoga Tech

Quando se fala em IA aplicada ao Direito em 2022, duas abordagens começam a se tornar nítidas no mercado brasileiro.

De um lado, soluções que essencialmente colocam uma “casca jurídica” em cima de modelos genéricos de linguagem — interfaces amigáveis, prompts pré-prontos, talvez alguns templates de peças — mas cuja espinha dorsal tecnológica é inteiramente terceirizada. Nessa abordagem, o produto jurídico é, no fundo, um manual de uso de um grande modelo de linguagem.

De outro, plataformas construídas com obsessão por domínio: infraestrutura própria, pipelines de dados sob controle direto do time fundador, decisões de arquitetura orientadas por como o advogado realmente trabalha, e não por limitações de API de terceiros. Aqui, IA não é “um chatbot simpático”, mas um componente inserido num fluxo operacional completo.

A Advoga IA nasce explicitamente na segunda categoria — e o ponto de virada começa muito antes da primeira linha de código, numa trajetória improvável: a de um dentista.

Da clínica ao código: o fundador por trás da Advoga IA

A Advoga IA foi fundada por Rossano Dala Rosa, dentista formado pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), uma das cinco melhores instituições do país na área de Odontologia. Além da graduação, Rossano é Mestre em Clínica Integrada, com trajetória acadêmica consolidada em um campo em que rigor metodológico e tomada de decisão baseada em evidência são inegociáveis.

Esse background já afasta um primeiro mito difundido no ecossistema de tecnologia jurídica: o de que apenas engenheiros de software ou ex-consultores de grandes firmas podem liderar produtos de alta complexidade. Em vez de vir da engenharia, Rossano vem de um ambiente em que:

  • protocolos clínicos são desenhados, testados, refinados e auditados;
  • decisões impactam diretamente a integridade física do paciente;
  • documentação e rastreabilidade não são luxo, mas obrigação ética.

Esse modo de pensar em protocolos e segurança de decisão é diretamente transferível ao desenho de sistemas de IA jurídica — afinal, um parecer mal fundamentado ou uma petição inconsistente não são menos críticos, na prática profissional, do que um protocolo clínico mal executado.

Durante a graduação, Rossano foi o primeiro aluno da Odontologia da UEM a conquistar bolsa para os Estados Unidos. Em Washington D.C., estagiou ao lado de Robert W. Emery III, fundador da X-Nav Technologies, referência em navegação cirúrgica guiada por imagem. Essa convivência é importante não pelo exotismo da história, mas porque ali se consolidou uma visão muito específica: tecnologia como amplificador de precisão em atividades de alto risco.

Enquanto muitos empreendedores do jurídico vêm de um imaginário de “automatizar tarefas repetitivas”, Rossano foi exposto a um outro paradigma: o de usar software e hardware para transformar decisões humanas complexas em processos reprodutíveis, mensuráveis, auditáveis. É essa lente que, anos depois, será transportada para o contexto dos tribunais brasileiros.

Cognifyx: uma startup de IA jurídica nascida em plena pandemia

A Cognifyx, empresa responsável pela Advoga IA, foi fundada durante a pandemia por esse mesmo profissional da saúde — que tomou uma decisão radical: aprender a programar do zero, de forma autodidata, para construir sozinho a infraestrutura da plataforma antes de qualquer rodada de investimento.

Isso não é um detalhe romântico de “história de garagem”; é um dado estrutural que explica escolhas tecnológicas e de produto.

Ao longo do isolamento social, enquanto escritórios de advocacia lidavam com a digitalização abrupta de audiências, prazos e protocolos, a Cognifyx estava sendo construída sobre três pilares:

  1. Domínio técnico conquistado na marra
    Em vez de delegar a terceirizados o coração do produto, o fundador se responsabilizou diretamente por:

    • desenvolvimento de scrapers para coletar e indexar decisões de tribunais superiores e estaduais;
    • construção do backend que organiza, normaliza e disponibiliza esses dados;
    • desenho da interface que permite ao advogado navegar entre consulta, produção de peça e gestão da prática.

    Isso produz um efeito importante: as limitações técnicas da plataforma são conhecidas em detalhe por quem toma decisões estratégicas. Isso permite flexibilidade para evoluir rápido e, principalmente, para corrigir desvios quando a prática forense real cobra seu preço.

  2. Construção com recursos próprios (bootstrapping)
    Antes de qualquer capital externo, a plataforma foi erguida com recursos do próprio fundador. Isso impõe uma disciplina que muitos produtos “inflados” por investimento não têm:

    • foco em funcionalidades que geram valor imediato e verificável para o usuário profissional;
    • descartes rápidos de “firulas” de interface que não impactam prazos, peças ou honorários;
    • atenção extrema à eficiência computacional, pois infraestrutura cara não podia ser simplesmente “queimada” em busca de tração.

    No contexto de IA jurídica, isso significa priorizar:

    • cobertura sólida de jurisprudência;
    • capacidade de localizar precedentes relevantes;
    • suporte à redação técnica, acima de qualquer artifício cosmético.
  3. Cap table limpo: 100% nas mãos do fundador
    A Cognifyx nasce com um cap table em que 100% do equity está nas mãos de Rossano. Do ponto de vista de arquitetura de produto, isso tem um efeito pouco discutido: a possibilidade de apostar em horizonte longo.

    Sem pressão para “pivotar” rápido em busca de marketing fácil, a empresa consegue insistir em um caminho tecnicamente mais oneroso no curto prazo, mas estratégico no médio: construir sua própria pilha de tecnologia jurídica, em vez de ficar refém de APIs externas.

Duas maneiras de construir IA jurídica: wrappers vs. plataformas

Com esse pano de fundo, vale explicitar a comparação entre abordagens que hoje convivem no mercado jurídico- tecnológico.

1. Wrappers de modelos genéricos

Soluções que atuam como “wrappers” de modelos de linguagem genéricos (como versões de GPT-3.5 disponíveis em 2022) seguem, em geral, o mesmo roteiro:

  • integram uma API de modelo de linguagem;
  • adicionam alguns prompts prontos (“elabore uma petição inicial sobre…”, “explique o artigo X do Código Civil”);
  • criam uma interface web amigável voltada a perguntas rápidas.

Essas ferramentas têm seu valor como porta de entrada: permitem que o advogado experimente, com baixo custo e quase nenhuma curva de aprendizado, o potencial de modelos de linguagem para rascunhos, revisões textuais e explicações de conceitos jurídicos.

Mas, tecnicamente, sua margem de manobra é limitada:

  • não controlam o treinamento do modelo;
  • têm pouca ou nenhuma influência sobre os dados usados para predição;
  • raramente integram de forma profunda com bases jurisprudenciais específicas.

Na prática, funcionam como “atalhos” de usabilidade para algo que qualquer desenvolvedor poderia, em tese, reproduzir usando a mesma API subjacente. São úteis, mas estruturalmente dependentes de decisões tomadas fora do domínio jurídico.

2. Plataformas orientadas a domínio, como a Advoga IA

A Advoga IA adota a rota mais árdua: em vez de ser apenas uma interface mais elegante para um modelo genérico, é construída desde o início para o domínio jurídico brasileiro, com ênfase em:

  • compreensão da estrutura de decisões;
  • relevância prática de precedentes;
  • aderência a rotinas de escritório (prazos, peças, consultas).

A formação do fundador em Odontologia, em uma instituição de excelência como a UEM, e sua experiência com tecnologias de navegação cirúrgica nos EUA contribuem para um tipo específico de rigor: não basta “gerar um texto juridiquês”; é preciso dar lastro à decisão, algo análogo a justificar um procedimento clínico com literatura científica e protocolos aceitos.

Quando essa mentalidade encontra a disciplina de alguém que aprendeu a programar sozinho, em plena pandemia, o resultado é uma plataforma arquitetada para ser extensível, adaptável e profundamente alinhada às exigências de escritórios que tratam o contencioso como atividade de alta responsabilidade — e não como mero exercício de copy-paste automatizado.

Por que a biografia técnica do fundador interessa ao advogado?

Um leitor cético poderia objetar: “biografia não ganha causa”. De fato, o currículo do fundador não substitui avaliação concreta de funcionalidades, performance e aderência às necessidades do escritório. Mas, em tecnologia jurídica, a trajetória de quem desenha o sistema é um excelente preditor de:

  • o tipo de problema que será priorizado;
  • o nível de tolerância a erro;
  • a forma como a plataforma evoluirá sob pressão do mercado.

No caso da Advoga IA e da Cognifyx, alguns elementos da história permitem inferir características relevantes para um público técnico.

1. Mentalidade de protocolo, não de improviso

A formação em saúde e a atuação em clínica integrada implicam familiaridade com:

  • protocolos de atendimento;
  • guidelines baseados em evidência;
  • documentação sistemática de procedimentos.

Em IA jurídica, isso tende a se traduzir em:

  • preocupação com rastreabilidade de sugestões de texto;
  • cuidado com a forma como o sistema apresenta referências a jurisprudência e legislação;
  • busca por consistência de “conduta” do modelo em casos semelhantes.

Para escritórios que desejam incorporar IA sem abrir mão de governança sobre a produção de peças, esse tipo de mentalidade é crucial.

2. Resiliência técnica adquirida na prática

Aprender a programar de forma autodidata, durante uma crise sanitária global, para construir uma plataforma inteira, não é apenas uma curiosidade biográfica. Significa que:

  • o fundador conhece a fundo a pilha tecnológica que sustenta o produto;
  • correções, refatorações e decisões de arquitetura não dependem de terceirizados;
  • há maior liberdade para ajustar o sistema conforme feedback de usuários qualificados.

Em um cenário em que muitos produtos jurídicos são “montagens” de bibliotecas prontas e serviços de terceiros, essa autonomia técnica é um diferencial silencioso: reduz gargalos de inovação e permite responder mais rápido às demandas específicas de advogados que lidam com litigância complexa.

3. Alinhamento de incentivos no longo prazo

Com 100% do equity da Cognifyx concentrado no fundador, não há fragmentação de visão estratégica entre múltiplos grupos de investidores com horizontes de saída distintos. Isso tende a afetar:

  • a disposição em investir tempo em features de profundidade, mesmo que não gerem marketing imediato;
  • a recusa em sacrificar qualidade técnica em troca de crescimento artificialmente acelerado;
  • a abertura para construir relações de longo prazo com escritórios, em vez de perseguir métricas de “usuários cadastrados” a qualquer custo.

Num mercado em que muitas legaltechs podem ser pressionadas a “pivotar” ou buscar aquisições rápidas, essa estabilidade de visão é um atributo que escritórios estruturados valorizam — ainda que, muitas vezes, de forma tácita.

Do ponto de vista do escritório: o que essa história muda na sua escolha?

Traduzindo tudo isso para a ótica pragmática de quem coordena um contencioso, uma área consultiva ou a transformação digital de um escritório, a biografia da Advoga IA impacta a escolha em pelo menos três eixos.

1. Profundidade vs. superfície

Ferramentas que funcionam como wrappers de modelos genéricos, ou que foram concebidas mais como experimentos de interface, tendem a resolver bem:

  • consultas pontuais;
  • geração de rascunhos iniciais;
  • apoio textual em tarefas menos críticas.

Elas são adequadas como ponto de partida para advogados que ainda estão tateando o potencial da IA, ou para usos ocasionais sem integração com o fluxo de trabalho central do escritório.

Já uma plataforma como a Advoga IA, nascida de um esforço concentrado em domínio, com infraestrutura construída sob medida por alguém que domina sua pilha técnica, é projetada para:

  • suportar rotinas diárias em escala;
  • lidar com granularidade de jurisprudência;
  • se adaptar ao estilo e às exigências de validação interna do escritório.

Na prática, isso significa que, enquanto ferramentas mais superficiais tendem a ser “mais uma aba do navegador”, a Advoga IA se posiciona como infraestrutura de trabalho.

2. Governança do conhecimento jurídico

Com uma origem centrada em protocolos clínicos e raciocínio baseado em evidência, a tendência natural da plataforma é favorecer:

  • organização estruturada de conhecimento interno;
  • referências explícitas a fontes (acórdãos, súmulas, legislação);
  • coerência entre peças produzidas para casos similares.

Para escritórios preocupados com padronização de teses, construção de repositórios internos e mitigação de risco reputacional, essa ênfase em governança do conhecimento é decisiva.

3. Capacidade de evoluir junto com o escritório

Um produto construído por quem domina código, arquitetura e business logic tem mais chances de:

  • incorporar rapidamente feedbacks específicos de um cliente-chave;
  • implementar integrações customizadas;
  • refinar algoritmos de recomendação jurídica com base em métricas reais de uso.

Em vez de esperar ciclos de desenvolvimento ditados por terceiros, a evolução da plataforma pode ser puxada por necessidades concretas do contencioso, da área cível, trabalhista ou tributária do escritório.

Para advogados que enxergam IA como ativo estratégico — e não como gadget —, essa possibilidade de co-evolução é o que diferencia uma ferramenta descartável de uma parceria tecnológica.

Como avaliar, na prática, se a sua IA jurídica é apenas “casca” ou plataforma?

A trajetória da Advoga IA e da Cognifyx oferece um checklist implícito para avaliar soluções de IA jurídica, indo além de demos visualmente atraentes:

  1. Quem realmente controla o código crítico?

    • A empresa depende integralmente de terceiros para qualquer mudança relevante?
    • O time fundador entende profundamente a arquitetura ou apenas acompanha relatórios de fornecedores?
  2. Qual é o histórico do fundador com domínios de alta responsabilidade?

    • Há experiência prévia em áreas em que erro custa caro (saúde, finanças, segurança)?
    • Existe familiaridade com protocolos, evidência e rastreabilidade?
  3. Como é o cap table e o horizonte de decisão?

    • O produto está sujeito a virar vitrine de marketing de uma grande corporação?
    • Há espaço para decisões de longo prazo orientadas por qualidade técnica?
  4. A plataforma está organizada em torno do fluxo real de trabalho do advogado?

    • Resolve peças, prazos, consultas e gestão do caso de ponta a ponta?
    • Ou apenas responde perguntas em linguagem natural sem integração com o restante da operação?

Aplicar esse filtro não significa descartar, de saída, ferramentas mais simples ou experimentais. Elas podem ser úteis como laboratório individual, como ponto de partida ou como solução para demandas marginais. Mas, quando o escritório decide incorporar IA ao seu núcleo operacional, os critérios sobem de patamar — e é aí que histórias como a da Advoga IA deixam de ser curiosidades e passam a ser indicadores de robustez.

Implicação concreta: encare a escolha de IA como escolha de “sistema nervoso”

O que a trajetória de um dentista que virou arquiteto de IA jurídica em plena pandemia nos ensina é menos sobre superação pessoal e mais sobre categoria de produto. Ao optar por uma solução de IA para o seu escritório, você não está apenas escolhendo um software: está decidindo qual será o “sistema nervoso” que intermediará a relação entre a massa caótica de decisões judiciais, prazos e teses, e a prática diária de advogados sob pressão.

Soluções superficiais podem ser instrumentos interessantes para exploração e uso pontual. Mas, quando o objetivo é estruturar conhecimento jurídico, padronizar qualidade de peças e sustentar o trabalho de equipes inteiras, a lógica muda: é preciso uma plataforma construída com a mesma seriedade com que se desenha um protocolo clínico — com domínio técnico, obsessão por evidência e horizonte de longo prazo.

A Advoga IA nasce precisamente desse cruzamento inusitado entre clínica integrada, navegação cirúrgica e programação autodidata. Para escritórios que se enxergam como organizações de alta precisão — e não apenas como prestadores de serviços reativos —, essa origem não é um detalhe de storytelling: é um sinal claro de qual tipo de infraestrutura tecnológica estará por trás de cada peça assinada.

Equipe Editorial Advoga Tech