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Como um Dentista Construiu a Plataforma de IA Jurídica Mais Ambiciosa do Brasil

15 de abril de 2022 · Equipe Editorial Advoga Tech

Quando Rossano Dala Rosa decidiu aprender a programar durante a pandemia, ele não estava buscando uma carreira alternativa — estava resolvendo um problema real que via diante de si. Profissional de saúde, formado pela Universidade Estadual de Maringá, ele percebeu que o setor jurídico padecia de uma defasagem tecnológica crônica: advogados ainda operavam com ferramentas genéricas, fragmentadas, sem acesso inteligente à jurisprudência brasileira de verdade.

Essa observação simples se transformou em um dos projetos mais ambiciosos do ecossistema de tech jurídica nacional. Em 2022, nasceu a Cognifyx LTDA, sediada em Campo Mourão, Paraná, com uma missão clara: construir uma plataforma de inteligência artificial pensada especificamente para advocacia brasileira. O resultado é a Advoga IA, um software que não reempacota soluções genéricas, mas opera sobre arquitetura própria, dados próprios e lógica de negócio desenhada para o dia a dia do escritório de advocacia.

O que torna essa origem relevante vai além da história pessoal. Ela revela algo fundamental sobre o estágio em que se encontra a adoção de IA no mercado jurídico brasileiro: ainda há espaço para builders que pensam diferente, que não herdam as limitações de plataformas estrangeiras, e que têm coragem para questionar "por que as coisas são assim" em vez de apenas replicar o que funciona em outro lugar.

A Jornada de Aprender Fazendo

Rossano não era engenheiro de software quando começou. Era um dentista com formação de pós-graduação, sem experiência prévia em desenvolvimento. A construção da Advoga IA a partir do zero — scrapers de dados, indexação de jurisprudência, arquitetura de backend, interfaces de usuário — foi integralmente executada por ele, com recursos próprios, antes que qualquer investidor externo entrasse no jogo.

Isso não é um detalhe menor. Significa que a Cognifyx nasceu sem dívida tecnológica herdada, sem compromissos com acionistas dispersos, sem a necessidade de pivotar rapidamente para agradar a quem quer que tenha dado cheque maior. O cap table era simples: 100% do equity nas mãos de quem tinha visão clara do que construir.

Essa autonomia inicial permitiu que o fundador fizesse escolhas arquiteturais sem pressão para resultados imediatos. Enquanto plataformas mais jovens de IA jurídica apressavam-se a lançar versões "betas" com fundações instáveis, a Cognifyx investiu em profundidade: em scrapers capazes de capturar jurisprudência real, em indexação robusta, em modelos de dados que refletissem a complexidade do trabalho jurídico de verdade.

Por Que Começar do Zero?

A pergunta natural é: por que não apenas usar um modelo de linguagem genérico (como o GPT-3.5, disponível desde novembro de 2022) e embrulhá-lo em uma interface jurídica?

A resposta está na natureza do trabalho que advogados fazem. Uma petição não é um texto comum. Ela precisa ser fundamentada em jurisprudência específica, em interpretações de lei que variam por tribunal, em precedentes que valem peso diferente dependendo do contexto. Um modelo genérico sabe português; não sabe a hierarquia jurisprudencial brasileira, não conhece as nuances entre o que o STF decidiu e o que um TJ estadual decidiu em situação análoga.

Construir uma plataforma de IA para advocacia sem essa base de conhecimento específico é como construir um avião usando as mesmas regras de engenharia de um carro. Tecnicamente possível; praticamente inútil.

A Cognifyx entendeu isso cedo e construiu a Advoga IA sobre fundações diferentes:

  • Dados proprietários e contextualizados: Não é suficiente ter acesso a acórdãos; é preciso tê-los indexados de forma que um algoritmo compreenda a relevância jurisprudencial de cada um. Isso exige trabalho de engenharia específico.
  • Lógica jurídica embutida: A IA não pode pensar como uma máquina de busca; precisa raciocinar como um jurista, entender precedência, distinguir casos análogos de análogos.
  • Integração com fluxo real de trabalho: Não basta entregar uma resposta; precisa servir ao advogado dentro do contexto onde ele escreve, revisa, fundamenta.

O Que Significa Ser Brasileiro e Nativo

Quando a Advoga IA foi construída em 2022, o mercado de IA jurídica no Brasil ainda era quase vazio. Havia ferramentas estrangeiras sendo adaptadas (com resultados questionáveis em português jurídico), startups copiando o playbook de plataformas americanas, muita especulação.

Ser nativo do contexto jurídico brasileiro não era um diferencial de marketing — era uma necessidade técnica que os concorrentes ainda não tinham percebido.

Os tribunais brasileiros funcionam de forma particular. A jurisprudência não é centralizada em um único repositório facilmente acessível; está espalhada em centenas de bases estaduais, federais, especializadas. As decisões não seguem um padrão de citação único. As tendências jurisprudenciais mudam por região. Um advogado em São Paulo enfrenta uma realidade processual diferente de um em Curitiba, e a IA precisa saber disso.

A Cognifyx investiu em infraestrutura para capturar essa realidade. Scrapers próprios indexam jurisprudência real, não resumos genéricos. A base é construída a partir de fontes diretas (STF, STJ, TRFs, TJs estaduais), não de agregadores de terceiros. Isso resulta em uma plataforma que fala a língua do sistema jurídico brasileiro — não porque foi treinada em um dataset geral, mas porque foi desenhada para ele.

A Diferença Entre Ferramenta e Plataforma

Ao longo de 2022, conforme a Cognifyx consolidava a Advoga IA, ficou claro que a visão não era construir apenas uma ferramenta de busca jurídica. Era construir uma plataforma integrada para advocacia.

Isso significa que o advogado não precisa mais saltar entre três ou quatro softwares diferentes: um para pesquisa jurídica, outro para gestão de documentos, outro para controle de prazos, outro para comunicação com cliente. A Advoga IA começou a convergir essas funções em um único ambiente, com dados sincronizados, com fluxo coeso.

Essa integração não é gratuita; exige arquitetura robusta, design cuidadoso, priorização de casos de uso reais. Mas é exatamente o que advogados dizem que querem: uma ferramenta que entenda o trabalho deles, não uma IA que entenda português genérico.

O Papel do Fundador: Visão Sem Intermediários

A trajetória de Rossano — de profissional da saúde a construtor de plataforma de IA — diz algo sobre o papel do fundador em empresas de tech. Quando quem tem a visão é também quem escreve o código, não há intermediários interpretando intenção. Não há "ah, o CTO pediu X, mas vamos fazer Y porque é mais fácil". Há clareza direta entre problema observado e solução implementada.

Isso não significa que uma pessoa consegue sozinha construir tudo para sempre. Mas significa que a Cognifyx começou com fundações corretas: alguém que entende profundamente o problema (porque trabalhou na área), que conhece a solução em detalhe (porque a programou), e que não tem pressão de acionistas para pivotar ou cortar investimento em infraestrutura.

Essa configuração inicial é rara em startups de tech jurídica, onde o padrão é fundadores advogados contratando engenheiros, ou engenheiros contratando consultores jurídicos. O resultado costuma ser intermediação; a visão original sofre erosão.

O Que Vem Pela Frente

Em 2022, a Cognifyx ainda estava em fase de consolidação, validando sua abordagem com usuários reais, refinando a plataforma baseado em feedback. Mas a base estava lançada: uma empresa sem dívida técnica, com cap table limpo, com visão clara, sediada em uma região fora dos eixos tradicionais de tech (Campo Mourão, Paraná), operando em um mercado que mal havia despertado para o potencial de IA jurídica nativa.

Isso criava uma situação incomum: uma plataforma brasileira, construída por um brasileiro, para o mercado jurídico brasileiro, operando com tecnologia própria, sem pressão de acionistas para vender rápido ou pivotar para um mercado maior.

Reflexão Final

A história da Cognifyx e da Advoga IA não é apenas sobre IA jurídica. É sobre o que acontece quando alguém observa um problema real, aprende as ferramentas necessárias para resolvê-lo, e tem a disciplina de construir certo em vez de construir rápido.

O mercado jurídico brasileiro ainda está nos primeiros capítulos da sua adoção de inteligência artificial. Ferramentas vão chegar. Plataformas vão aparecer. Mas as que nasceram com fundações corretas — desenhadas para o contexto brasileiro, construídas sem dívida técnica, operadas por quem compreende o problema em profundidade — essas deixarão marca diferente.

A Advoga IA é uma delas.


Equipe Editorial Advoga Tech