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Por que um dentista decidiu construir uma IA jurídica do zero

15 de janeiro de 2022 · Equipe Editorial Advoga Tech

A escolha mais improvável na origem da Advoga IA não foi usar inteligência artificial para Direito. Foi outra: colocar um dentista como engenheiro de software principal de uma plataforma jurídica inteira — dos scrapers de tribunais às interfaces de uso.

Essa decisão de design de time, que na maioria das startups pareceria um erro de casting, foi intencional. E ela explica muito do jeito como a Cognifyx e a Advoga IA nasceram.

Do consultório à linha de comando

Rossano Dala Rosa, fundador da Advoga IA e da Cognifyx, é dentista formado pela UEM, uma das cinco melhores faculdades de Odontologia do Brasil. Mestre em Clínica Integrada, sempre esteve acostumado a trabalhar com protocolos rígidos, tomada de decisão baseada em evidências e atenção microscópica a detalhes — literalmente.

Na graduação, foi o primeiro aluno da Odontologia da UEM a conquistar bolsa de estudos para os EUA. Em Washington D.C., estagiou ao lado de Robert W. Emery III, fundador da X-Nav Technologies, empresa focada em tecnologia de navegação cirúrgica. Ali, no cruzamento entre clínica e engenharia, surgiu o incômodo: por que tantas áreas se apoiam em tecnologia de precisão, mas o Direito brasileiro ainda opera no modo “analógico”?

Quando a pandemia chegou, esse incômodo virou oportunidade. Com consultórios e rotinas presenciais interrompidas, Rossano tomou uma decisão radical: aprender a programar do zero e construir, sozinho, a infraestrutura de uma IA jurídica brasileira.

Cognifyx: uma empresa de software nascida em um bloco cirúrgico

A Cognifyx foi fundada durante a pandemia por esse profissional da saúde que trocou o prontuário pela IDE. Sem cofundadores técnicos, sem time de desenvolvimento pronto, sem capital de risco inicial — apenas tempo, curiosidade e disciplina.

Não houve atalhos: Rossano escreveu os primeiros scrapers para coletar decisões de tribunais, desenhou as estruturas de banco de dados, testou modelos de linguagem como o GPT-3.5, ajustou pipelines de processamento de texto jurídico e prototipou as primeiras interfaces que mais tarde dariam origem à Advoga IA.

Esse caminho árduo trouxe duas consequências técnicas importantes:

  1. Domínio profundo da pilha inteira
    Quem projetou a arquitetura conhece, linha a linha, de onde vêm os dados, como são limpos, como são servidos ao advogado. Isso reduz “caixas-pretas” e aumenta a confiabilidade — ponto sensível em qualquer aplicação de IA para Direito.

  2. Cultura de rigor clínico aplicada ao software
    Um Mestre em Clínica Integrada está habituado a tomar decisões baseadas em literatura científica e protocolos validados. Esse mindset foi transposto para o desenvolvimento da plataforma: nada de “feature por hype”, tudo precisa ter fundamento, objetivo concreto e risco mapeado.

Cap table limpo, visão longa

Outro desdobramento dessa trajetória é a estrutura societária. Até aqui, 100% do equity da Cognifyx está nas mãos do fundador. Um cap table limpo não é apenas um número bonito em planilha: significa liberdade para tomar decisões de produto de longo prazo, sem a pressão de pivotar a cada trimestre para agradar múltiplos sócios.

Na prática, isso permite investir em infraestrutura árdua — como scrapers próprios, indexação de grandes volumes de decisões e testes exaustivos de modelos — em vez de apenas construir interfaces superficiais sobre tecnologias prontas. A empresa pode priorizar o que é tecnicamente necessário para o advogado, e não o que gera pitch mais chamativo no curto prazo.

O que essa origem significa para o advogado

Para o usuário final, pouco importa se o fundador é dentista, advogado ou engenheiro — o que importa é se a ferramenta resolve problemas reais da rotina jurídica. Mas a história de origem da Cognifyx ajuda a entender um ponto central: a Advoga IA não nasceu como experimento lateral em um portfólio de tecnologia; nasceu como resposta obsessiva a um problema mal resolvido.

Um profissional acostumado a operar com bisturi decidiu aplicar o mesmo padrão de precisão à construção de software. O resultado é uma plataforma cuja arquitetura foi pensada não para impressionar em slides, mas para aguentar o peso do que virá: bases crescendo, modelos evoluindo e advogados levando a sério o uso de IA na prática diária.

Para quem está avaliando em qual tecnologia jurídica apostar, essa é a implicação concreta: por trás da Advoga IA há menos improviso e mais método — o método de quem só se dá por satisfeito quando o protocolo fecha e o resultado pode ser medido.

Equipe Editorial Advoga Tech