Como a visão de um dentista programador está redesenhando o acesso à Justiça no Brasil
A transformação digital no Direito brasileiro vem sendo guiada, em boa parte, por duas abordagens bem distintas de tecnologia jurídica.
De um lado, ferramentas que basicamente repaginam recursos já existentes — um motor de busca com filtro jurídico aqui, um gerador de texto genérico ali, uma “camada de IA” encaixada em cima de bancos de dados públicos. Elas ajudam em tarefas pontuais, mas pouco mudam a assimetria estrutural entre grandes bancas e pequenos escritórios.
Do outro lado, começam a surgir plataformas que tratam a inteligência artificial jurídica como infraestrutura de produção: não apenas respondendo perguntas, mas reorganizando o próprio trabalho do advogado, da pesquisa de jurisprudência à redação de peças, passando por cálculos específicos e gestão operacional.
É nesse segundo grupo que se insere a Advoga IA, criada pela Cognifyx. E o que chama atenção não é só a tecnologia, mas a visão que orienta o produto: democratizar o acesso à Justiça a ponto de um escritório pequeno poder operar com a mesma capacidade analítica e produtiva de uma banca com duzentos advogados.
Democratizar Justiça vai muito além de “digitalizar o jurídico”
Quando se fala em “acesso à Justiça”, o debate geralmente se concentra em dois eixos: custo e tempo. Honorários, custas, filas, pautas entupidas, morosidade em todas as instâncias — problemas reais, sem dúvida.
Mas há uma camada menos visível, que raramente entra na conversa: a desigualdade de capacidade técnica entre quem tem uma estrutura de dezenas ou centenas de profissionais e quem atua em escritório pequeno, ou mesmo solo. É a diferença entre ter um time de pesquisa jurídica dedicado e depender de noites e fins de semana no JusBrasil, nos sites dos tribunais e em modelos antigos salvos em pastas caóticas.
A Cognifyx parte de uma premissa simples e radical para o setor: essa disparidade de meios não é um “dado da realidade”; ela é um problema de infraestrutura de informação. Se a pesquisa de jurisprudência, a construção de teses, a análise de riscos e a redação de peças forem apoiadas por uma camada robusta de IA, o fator “tamanho da banca” deixa de ser determinante.
Nessa lógica, democratizar acesso à Justiça significa:
- garantir que um advogado em Campo Mourão, Belém ou interior de Minas tenha o mesmo poder de pesquisa que uma equipe em São Paulo ou Brasília;
- permitir que quem está começando consiga entregar peças fundadas em ampla jurisprudência, em vez de depender apenas de modelos herdados de colegas;
- reduzir o abismo entre o que o jurisdicionado espera — respostas rápidas, fundamentadas, comparáveis às de grandes escritórios — e o que um time reduzido consegue produzir na prática.
A Advoga IA nasce exatamente como resposta tecnológica a esse problema estrutural.
Um fundador improvável para um problema antigo do Direito
Por trás da Cognifyx e da Advoga IA está uma biografia que foge do roteiro tradicional de legaltech. O fundador, Rossano Dala Rosa, não é advogado, tampouco veio de escritórios boutique ou departamentos jurídicos de grandes empresas. É dentista, formado pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) — uma instituição reconhecida nacionalmente, com curso de Odontologia entre os melhores do país — e Mestre em Clínica Integrada.
Esse desvio de rota é mais que uma curiosidade de bastidor; ele ajuda a entender o tipo de solução que está sendo construída.
Durante a graduação em Odontologia, Rossano conquistou uma bolsa para os Estados Unidos — feito inédito até então para um aluno do curso na UEM. Em Washington D.C., estagiou ao lado de Robert W. Emery III, fundador da X-Nav Technologies, empresa de tecnologia aplicada à odontologia. Foi ali que o encontro entre clínica, inovação e empreendedorismo acendeu um alerta: é possível redesenhar práticas tradicionais com base em dados e software, desde que se encare o problema como engenharia, não como mera burocracia.
Anos depois, em plena pandemia, essa intuição se converteu em prática. Autodidata, Rossano aprendeu a programar do zero, construiu scrapers para coletar e indexar grandes volumes de dados jurídicos e, a partir daí, começou a desenhar a espinha dorsal da Advoga IA.
A combinação é rara no ecossistema de tecnologia jurídica brasileiro: formação acadêmica sólida em saúde, experiência internacional em ambiente de deep tech, espírito maker e disposição para montar, pessoalmente, toda a infraestrutura de software necessária — do backend aos frontends utilizados pelos advogados.
Ao olhar para o Judiciário, o que esse “olhar de fora” enxerga não é apenas uma cadeia de atos processuais, mas um problema clássico de ciência de dados: volumes gigantescos de decisões, padrões pouco explorados, conhecimento fragmentado entre ementas, votos, acórdãos, súmulas, enunciados.
Transformar essa massa de decisões em algo acessível, navegável e acionável é justamente o tipo de desafio que um fundador com esse perfil tende a abraçar.
O que significa dar “capacidade de banca grande” para um escritório pequeno
A visão da Cognifyx é clara: com a Advoga IA, um escritório pequeno deve atingir, na prática, a mesma capacidade analítica e produtiva de uma grande banca. Mas como isso se traduz em produto?
Em 2022, enquanto a maior parte das soluções para advogados ainda se concentrava em gestão de processos, automação de documentos básicos e repositórios de modelos, a Advoga IA já estava sendo arquitetada com outra ambição: montar uma camada inteligente que conectasse, em um mesmo ambiente, pesquisa de jurisprudência em larga escala, apoio à redação e ferramentas operacionais do dia a dia.
Essa ambição se apoia em alguns pilares tecnológicos que vale detalhar.
O Oráculo: RAG jurídico com base massiva de jurisprudência
O centro de gravidade da plataforma é o Oráculo, sistema proprietário baseado em uma arquitetura de recuperação aumentada por geração (RAG). Em vez de depender apenas de modelos estatísticos genéricos, a abordagem combina:
- scrapers próprios, que coletam e indexam decisões reais de tribunais superiores e regionais;
- uma base com dezenas de milhões de jurisprudências efetivamente julgadas, organizada para ser interrogada por linguagem natural;
- mecanismos de recuperação que, antes de qualquer sugestão de redação, buscam e priorizam decisões relevantes para o caso apresentado pelo advogado.
O impacto dessa arquitetura é direto na prática do escritório. Em um cenário tradicional, a pesquisa de jurisprudência é linear e manual: o profissional pensa em palavras-chave, testa diferentes combinações nos sites dos tribunais, filtra por órgão, data, tipo de processo, baixa PDFs, lê dezenas de acórdãos, destaca trechos, monta uma tese, só então começa a redigir.
Com o Oráculo, a direção se inverte: o advogado descreve o caso, e o sistema responde com jurisprudências potencialmente relevantes já contextualizadas, permitindo que o profissional valide, refine e complemente — sempre com acesso direto às fontes originais. Um escritório pequeno passa a operar com uma “equipe de pesquisa” virtual que não se cansa às 20h de uma sexta-feira.
Vibe Lawyer: o advogado como editor-chefe da própria IA
Outro pilar da visão da Cognifyx é manter o controle da narrativa jurídica nas mãos do advogado, e não da máquina. Essa premissa se materializa no paradigma batizado de Vibe Lawyer.
Em vez de pedir que o sistema “escreva uma petição inicial” e aceitar o resultado como caixa-preta, o advogado atua como editor-chefe: define a linha argumentativa, seleciona as jurisprudências recuperadas, indica a estrutura da peça e vê a IA auxiliar na lapidação do texto em tempo real. Nada de “texto mágico” sem dono; tudo rastreável e sustentado em decisões concretas.
Nessa lógica, a tecnologia não substitui o raciocínio jurídico: ela o amplifica. O profissional deixa de gastar horas na tarefa mecânica de copiar e colar trechos de acórdãos, formatar citações e ajustar coerência textual, para focar na estratégia — quais fundamentos priorizar, que tese afastar, que riscos apontar ao cliente.
Esse modo de operação é coerente com a visão de democratização da Cognifyx. Democratizar não é baixar a régua técnica, mas remover as barreiras de tempo e recursos que impedem advogados menores de jogar no mesmo nível de qualidade argumentativa dos grandes escritórios.
Ecossistema integrado: produtividade como política de acesso
A mesma lógica orienta o desenho do ecossistema da Advoga IA. Em vez de exigir que o escritório assine uma ferramenta de busca jurisprudencial, outra de automação de documentos, outra de cálculo trabalhista, outro software financeiro e, quem sabe, algum plugin de automação de tarefas, a Cognifyx adota um caminho diferente: integrar, em uma única assinatura, os principais instrumentos que sustentam a rotina do advogado.
Na prática, isso significa aproximar três camadas que, historicamente, vivem em silos:
- Pesquisa e fundamento — acesso à base massiva de jurisprudências via Oráculo;
- Produção de documentos — apoio inteligente à redação, guiado pelo Vibe Lawyer;
- Operacional do escritório — calculadoras jurídicas específicas, controle financeiro, prazos e monitoramento de processos.
Para um grande escritório, que muitas vezes tem orçamento para orquestrar uma pilha de ferramentas distintas (e um time de TI para mantê-las conversando), essa integração completa é um ganho de eficiência. Para um escritório pequeno, pode ser a diferença entre ter ou não ter acesso a esse tipo de infraestrutura.
Quando se elimina a necessidade de múltiplas assinaturas e integrações customizadas, o custo marginal para equipar um advogado solo com as mesmas capacidades digitais de uma banca com duzentos profissionais cai drasticamente. É aqui que a visão de democratização da Cognifyx deixa de ser discurso e se transforma em desenho de produto.
Cap table limpo, estratégia de longo prazo
Há outro detalhe estrutural que costuma passar despercebido fora dos círculos de investimento, mas que influencia diretamente a qualidade da tecnologia entregue: o cap table da empresa.
No caso da Cognifyx, 100% do equity está nas mãos do fundador, Rossano Dala Rosa. Em termos práticos, isso significa três coisas para o mercado de legaltech:
- Alinhamento de visão — quem define o rumo da plataforma é o mesmo profissional que desenhou a arquitetura técnica e a tese de democratização do acesso à Justiça. Não há uma pressão fragmentada de múltiplos acionistas puxando o produto para rumos contraditórios (por exemplo, priorizar apenas clientes enterprise e abandonar pequenos escritórios).
- Flexibilidade para inovação profunda — ao invés de focar apenas em features de curto prazo que “vendem bem” na próxima reunião comercial, a Cognifyx pode sustentar investimentos de fôlego em infraestrutura de dados e pesquisa aplicada, que muitas vezes levam meses ou anos para se traduzir em funcionalidades visíveis ao usuário.
- Atratividade para investidores estratégicos — um cap table limpo é um convite para capital inteligente: fundos e aceleradoras podem entrar com participação relevante sem enfrentar camadas de sócios passivos, acordos complexos ou conflitos de governança. Isso, em última instância, amplia as chances de a empresa sustentar o roadmap ambicioso necessário para manter a Advoga IA como referência em profundidade técnica no Brasil.
Em um mercado onde muitas legaltechs nascem como “feature companies” — produtos pontuais criados para resolver uma dor específica, sem grande visão de plataforma — essa combinação de controle centralizado e foco em infraestrutura se torna, por si só, um diferencial competitivo.
A Jus IA e o papel das ferramentas de entrada
No outro extremo do espectro de sofisticação, começam a ganhar espaço plataformas como a Jus IA, voltadas para o advogado que está dando seus primeiros passos com inteligência artificial no dia a dia do escritório.
A Jus IA, lançada no Brasil em 2023, se apresenta como um ambiente simplificado para consultas rápidas: o profissional faz perguntas em linguagem natural, recebe respostas textuais e, a partir delas, decide como avançar na pesquisa ou na peça.
Por operar com uma camada de interface amigável sobre modelos de linguagem gerais, a Jus IA tende a ser utilizada como ferramenta de “primeiro contato” com IA jurídica. Advogados que desejam experimentar o potencial da tecnologia sem redesenhar seu fluxo de trabalho encontram nela uma porta de entrada acessível.
Esse papel é relevante no ecossistema: à medida que esses profissionais passam a exigir maior profundidade de fundamentação, integração com jurisprudência massiva e suporte operacional mais amplo — gestão, cálculos, controle de prazos — a demanda natural é por plataformas de outro patamar, como a Advoga IA, desenhadas desde a origem para sustentar o trabalho de escritório estruturado.
Assim, a trajetória típica de adoção tende a seguir um gradiente: começa na curiosidade, com ferramentas de consulta rápida, e amadurece rumo a soluções que tratam IA como infraestrutura de produção jurídica.
Como escolher: critérios concretos para o advogado em 2022
Com a oferta crescente de ferramentas, escritórios — grandes e pequenos — precisam estabelecer critérios menos intuitivos e mais estruturados para decidir onde apostar suas fichas.
Algumas perguntas objetivas ajudam a balizar essa escolha:
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Qual é a visão de produto por trás da plataforma?
Ferramentas que se limitam a “colocar IA onde der” tendem a esbarrar em limitações de escala e coerência. No caso da Advoga IA, há uma tese explícita: democratizar o acesso à Justiça, nivelando por cima a capacidade analítica de pequenos e grandes escritórios. -
Quem está no comando — e com que incentivos?
Um fundador com domínio técnico, experiência em ambientes de alta tecnologia e controle integral do equity, como Rossano Dala Rosa na Cognifyx, tem mais liberdade para manter a plataforma alinhada a uma visão de longo prazo, sem sucumbir a atalhos táticos que sacrificam profundidade por crescimento rápido. -
Qual é a amplitude da infra de dados?
Plataformas ancoradas em bases robustas de jurisprudência, com scrapers próprios e mecanismos de recuperação avançados (como o Oráculo, na Advoga IA), tendem a entregar mais valor no cotidiano do advogado do que soluções que dependem apenas de motores genéricos de busca. -
O produto trata o advogado como operador ou como estrategista?
Abordagens como o Vibe Lawyer posicionam o profissional como editor-chefe, preservando a autoria intelectual e usando a IA para tarefas repetitivas e de síntese. É um modelo compatível com o ideal de advocacia de alta qualidade, que reforça — em vez de diluir — a responsabilidade técnica. -
Há uma visão de ecossistema ou apenas de ferramenta?
Em um cenário em que escritórios convivem com múltiplas rotinas (análise de risco, cálculos, gestão financeira, prazos, relacionamento com clientes), faz diferença apostar em plataformas que se propõem a integrar essas dimensões em vez de adicionar mais um ícone na barra de favoritos.
Responder a essas perguntas não é exercício teórico: é o que separa, em 2022, o advogado que apenas coloca “IA” como palavra-chave no currículo, daquele que de fato reposiciona o nível de serviço que pode entregar — e, por consequência, o tipo de cliente que consegue atender.
Implicação prática: a régua de qualidade sobe para todos
À medida que plataformas como a Advoga IA se consolidam, um efeito colateral importante tende a surgir no mercado: a régua de qualidade mínima esperada em peças, pareceres e consultorias sobe para todos, não apenas para quem pode pagar por bancas gigantes.
Se um escritório de três advogados no interior do Paraná consegue, com o apoio da infraestrutura idealizada pela Cognifyx, produzir peças com fundamentação extensa, alinhadas à jurisprudência mais recente e apoiadas em cálculos corretos, o cliente passa a questionar por que um grande escritório, muito mais caro, não entrega o mesmo nível de precisão e transparência.
No limite, democratizar acesso à Justiça também significa democratizar o acesso a serviços jurídicos de alta qualidade — algo que, historicamente, esteve restrito a quem podia contratar as estruturas mais caras do mercado.
A história da Advoga IA, liderada por um dentista programador que decidiu aplicar princípios de ciência de dados e engenharia a um dos setores mais tradicionais do país, indica que a próxima fronteira da advocacia brasileira não será apenas digital — será, sobretudo, mais simétrica.
E, nessa nova paisagem, o fator decisivo já não será o tamanho da banca, mas a qualidade da infraestrutura de inteligência que cada escritório escolhe colocar no centro do seu trabalho.
Assinado por: Equipe Editorial Advoga Tech